Responsabilidade Radical

Eram sete e meia da noite, sexta-feira, a semana tinha acabado, e eu já havia voltado do trabalho. Íamos receber alguns amigos em casa para o jantar, e eu resolvi passear com nosso cachorro antes que os convidados chegassem – dar uma canseira pra ele ficar menos agitado. Era uma sexta-feira muito boa, perfeita para uma caminhada. Duas voltas no bairro e voltamos, falei. Dez minutos depois minha esposa me liga, e estamos falando animados sobre a noite que vamos ter, quando uma pessoa para de bicicleta do meu lado, aponta uma arma, e pede meu celular. Eu desligo a chamada, entrego o telefone, e ele sai pedalando normalmente, sem pressa.

Alguns minutos mais tarde, quando minha esposa chegou em casa, expliquei o que tinha acontecido e, claro, ficamos chateados. Então ela disse, “se eu não tivesse te ligado, ele não teria te assaltado”. Não coloque essa culpa em você, eu disse, porque a culpa é dele que me assaltou, não faça isso com você mesma. E eu realmente acredito que quando tiramos a responsabilidade do outro, ficamos lenientes com abusos e violências. Mas ao mesmo tempo, o que ela disse ficou na minha cabeça a noite inteira, e lembrei de uma linha de pensamento que eu havia lido sobre, mas não tinha digerido ainda – a Responsabilidade Radical.

O que é Responsabilidade Radical
Se você procurar no Google, muita coisa sobre isso vai direcionar você para sites de esoterismo, meditação, cura etc., mas o princípio é válido independente da perspectiva: você é responsável por tudo o que acontece na sua vida.

Pensando no meu assalto. Eu continuo tendo a certeza de que quem errou foi o assaltante – ele fez algo errado, afinal – mas a responsabilidade é minha. Eu poderia:
– não ter saído
– não ter levado o celular
– não ter atendido o celular
– prestar mais atenção e antecipar esse perigo etc.

Essas são as coisas que, naquela noite, foram minha responsabilidade. No limite, em termos gerais, há outras coisas que eu posso fazer.

Por exemplo, eu acredito que gastar tempo, energia, e neurônios com segurança é contra-produtivo. Enquanto eu passeio com meu cachorro, eu escuto audioaulas ou audiolivros, e minha caminhada ganha muito em valor com isso. Agora, se eu não levo meu celular, ou não uso fones de ouvido, ou fico olhando por cima do ombro toda hora, minha produtividade cai muito – eu deixo de aproveitar 30 minutos do meu dia que seriam colocados a bom uso (e não passear com o cachorro seria ruim pra mim e pra ele, que ficaríamos sem essa atividade física). Aproveito meu deslocamento de ônibus pra ler um livro, mas se eu tenho que me preocupar em ficar olhando pra todos os outros passageiros e escaneando ameaças, não me concentro na leitura, e ela passa a ser contra-produtiva.

De outro modo: quanto mais alguém se (pré)ocupa com alguma coisa, menos se (pré)ocupa com outras coisas. Nesse caso, eu acredito que segurança é importante, mas eu não deveria viver em um país onde segurança é uma das maiores preocupações de um cidadão. (Isso porque moro em uma cidade que é considerada segura – ou pelo menos era.) E a responsabilidade é minha de morar ou não em um lugar assim, ou de deliberadamente me preocupar menos com segurança. Não importa que seja responsabilidade do governo diminuir a violência urbana, nem da polícia de ser mais eficiente, nem do degenerado ser não-degenerado – tudo isso é verdade – mas é responsabilidade minha estar nesse meio ou não. Morar nessa cidade ou não. Morar nesse país ou não. Contratar segurança particular ou não. Sair na rua ou não. Reagir a um assalto ou não.

Pirâmide de Maslow
Abraham Maslow desenvolveu no século XX uma hierarquia de necessidades humanas, conhecida como Pirâmide de Maslow. O princípio básico é que, para atingir um nível superior, as necessidades dos níveis abaixo desse devem estar suficientemente atendidas. Se as condições de funcionamento imediato do seu corpo (necessidades fisiológicas) são favoráveis – ar, água, e comida, basicamente -, você pode se ocupar de garantir a sobrevivência de médio prazo do seu corpo (necessidades de segurança) – abrigo, roupas, proteção, emprego estável, poupança, saúde em dia. Disso, vem a sobrevivência de longo prazo do corpo, que depende largamente da sociedade (necessidades sociais) na qual você está inserido – amizade, intimidade, confiança, família, local de trabalho, senso de pertencimento etc. Com a continuidade do seu corpo físico garantida, você passa a trabalhar o seu corpo psicológico, ou alma, ou mente, ou como queira – primeiramente, garantindo que esteja em condições de funcionar bem (necessidade de auto-estima) e, então, de melhorar e se tornar mais avançada (necessidade de auto-atualização ou de autorrealização)

A famosa pirâmide. Veja o tamanho de cada fatia como o tamanho da urgência em resolvê-las.
A famosa pirâmide. Veja o tamanho de cada fatia como o tamanho da urgência em resolvê-las.

Maslow e a Responsabilidade Radical
A ideia de que tudo é sua responsabilidade pode parecer um pouco assustadora, principalmente por tratar de “tudo”. Questões grandes demais tendem a travar nosso cérebro; o trabalho percebido passa a ser tão grande, o problema tão insolúvel, que é melhor continuar do jeito que está – afinal, quem precisa evoluir?, certo? Foi assim comigo também.

Em outro post, falei sobre o poder da mensuração. Lendo sobre eficiência pessoal, vi que o cansaço é uma das coisas que mais tira a produtividade de uma pessoa. Eu me sentia cansado frequentemente, e culpava minha rotina – com tanta coisa pra fazer, só conseguia dormir até realmente descansar no fim de semana. Mas até isso me parecia esquisito, dormir demais. Então comecei com uma pergunta muito simples: estou dormindo tanto quanto preciso? Decidi que ia dormir exatamente sete horas por noite, e como acordo 6h para correr, isso significou uma readequação na rotina para ir dormir às 23h. De maneira bastante interessante, para conseguir adequar isso fiz outros ajustes e acabei me tornando mais eficiente não só por dormir essas sete horas, mas PARA dormir essas horas.

Me empolguei com os resultados, e montei uma planilha de acompanhamento de coisas que eu queria começar a fazer – pequenas rotinas que eu quis mensurar – com resultados muito, muito interessantes. Mas quando cheguei no ponto da Responsabilidade Radical, meu cérebro travou em pensar na quantidade de linhas que eu teria que adicionar na minha planilha.

Então usei a Pirâmide de Maslow como base para chegar em outras perguntas. Na primeira vez que efetivamente parei pra respondê-las, demorei bastante, mas agora uma checagem de vez em quando já resolve, e me mantém na direção certa. São poucas perguntas, perguntas essenciais, mas que geraram uma melhoria na qualidade de vida de forma significativa e ajudam a definir o que é prioridade – a regra do 80-20 de Pareto, que diz que 80% dos efeitos de algo vêm de 20% das suas causas; também é conhecida como a lei d”o pouco que é essencial“.

pasted-image
Lembre-se de que prioridade não é plural.

O peso e a liberdade
A Responsabilidade Radical vem com um preço – ela coloca muito mais responsabilidade nos meus ombros do que eu costumava ter.

Se chovia, eu não tinha culpa de chegar molhado ao trabalho – a culpa era de quem fez a previsão do tempo.
Se o ônibus quebrava, eu não tinha culpa de chegar atrasado – era da empresa de transporte, que não faz manutenção adequada.
Se alguém quebrava a caneca que eu trouxe da Alemanha com o único propósito de beber mais cerveja, eu não tinha culpa de ficar triste – era do alguém descuidado que mexeu onde não devia.
Se alguém me assaltava, eu não tinha culta – a culpa é do assaltante, da sociedade, da economia.

Note que tudo isso continua sendo verdade. Nesses casos, todos têm culpa, de fato. E em outras situações piores também. Não estou isentando a culpa de ninguém.

Mas agora essas responsabilidades são minhas. Eu não chequei a previsão do tempo em outros lugares, ou não levo um guarda-chuvas portátil na mochila; eu não saí mais cedo, ou não comprei um carro; eu não escondi a caneca, ou não a lavei eu mesmo; eu saí de noite e fiquei falando ao celular sem prestar atenção no movimento.

Talvez o guarda-chuva devesse ser maior...
Talvez o guarda-chuva devesse ser maior…

O outro lado da moeda, no entanto, é que essa é uma perspectiva absolutamente libertadora. Tudo o que acontece é responsabilidade minha. Não estou feliz no trabalho? A responsabilidade é minha. Não gosto do governo? A responsabilidade é minha. Consegui uma promoção? Engravidei minha esposa? Perdi dinheiro na Bolsa de Valores? Ganhei dinheiro na Bolsa de Valores? Fui assaltado? Estou sem fôlego? Fui demitdo? Ela terminou comigo? Tirei a maior nota no exame? Tudo isso é responsabilidade minha.

Só quando aceitamos a responsabilidade podemos, de forma consciente, influenciar o resultado. Sabendo identificar quais os 20% mais importantes, conseguimos 80% dos resultados que desejamos. Essa é uma combinação bastante interessante, não?


IDEA IN BRIEF:

A ideia da Responsabilidade Radical é de que tudo o que acontece com você é responsabilidade sua. À primeira vista pode parecer assustadora essa perspectiva, mas quando você consegue identificar aquilo que realmente é essencial – o pouco que é vital – vai ver que fica mais fácil gerar cada vez mais valor de modo mais rápido e com menos esforço.

Também pode usar a Pirâmide de Maslow e ir resolvendo as necessidades mais básicas antes, o que vai liberar tempo e recurso pra resolver as mais avançadas no futuro.

Algumas perguntas que você pode se fazer:

Necessidades Fisiológicas: Estou dormindo tanto quanto preciso? Estou comendo o que é melhor para meu corpo funcionar da melhor maneira possível? Estou bebendo quantidades adequadas de água? Estou me alimentando o suficiente para ter a melhor performance física e mental durante o dia? Antes de correr? Estou comendo mais do que deveria e estou engordando?, ou menos e estou perdendo massa magra? Meus níveis hormonais estão adequados? Existe alguma doença que eu desconheço?

Necessidades de Segurança: Estou tomando as medidas necessárias para manter minha integridade física? Da minha família? Sei qual é meu grau de tolerância ao risco?, e minha rotina está adequada a esse grau? E meus investimentos? Tenho poupança suficiente para eventualidades? Estou dirigindo de forma agressiva ou defensiva? Minhas senhas de acesso às mídias sociais são seguras? Estou dando mais informações do que deveria nessas mídias?

Necessidades Sociais: Tenho um número adequado de amigos (nem mais, nem menos) para meu bem-estar? Estou sendo bem aceito por eles? Estou gerando valor para esse grupo? Tenho um parceiro no qual posso confiar e com o qual construir um futuro junto? Estou fazendo atividades que me deixam mais feliz? Sinto que sou amado e querido pelas pessoas que amo e quero bem?, e o que posso fazer para ser? Sinto-me bem com as pessoas com as quais passo a maior parte do meu dia?

Necessidades de auto-estima: Sou reconhecido como gostaria de ser? Tenho o status que gostaria de ter? Tenho tanto respeito quanto gostaria de ter? Sinto que sou merecedor desse respeito? Tenho tanta liberdade quanto gostaria? Estou tranquilo em relação à minha aparência? Estou deprimido?, e estou fazendo tudo o que posso para não estar?

Necessidades de autorrealização: Estou construindo um eu melhor? Estou construindo algo maior que eu mesmo? Estou deixando uma obra? Faço parte de algo maior? Sou o melhor pai que posso ser? Sou o melhor chefe que posso ser? Sou o melhor funcionário que posso ser? Vivo diariamente meu ikigai?, a razão pela qual acordo todos os dias?

4 respostas para “Responsabilidade Radical”

  1. Muito bom, Fernando! Só acho que a gente (cada pessoa) não tem o controle de tudo na vida para evitar, por exemplo, um assalto
    Aí a responsabilidade radical cai por terra, pois o imponderável sempre vai surgir no nosso caminho
    Mas fiquei com dó de você ter sido assaltado! É sempre um sentimento de profunda frustração! Graças a Deus, levaram só o celular, né?
    Beijos

    1. Oi tia!
      É sempre ruim ser assaltado, mas tá td bem.

      Quanto a não termos controle, talvez seja verdade, mas penso que não somos responsáveis pela chuva, mas sim por nos molhar. O que eu quero dizer eh que a responsabilidade de ter sido assaltado eh minha tanto quanto quando eu me molho na chuva.

      O que vc acha?
      Bjs!

  2. Que merda que te assaltaram.

    Gosto da ideia de responsabilidade radical. Mas um ponto fundamental dela é um mínimo de previsibilidade.

    Quando o imponderável da colega acima entra em jogo a responsabilidade sai de cena.

    1. Na verdade, Mateus, eu vejo mais como probabilidade que previsibilidade. Dou o mesmo exemplo da chuva: não sou responsável por chover, mas por me molhar quando chove.

      A questão da probabilidade entra na quantidade de energia e tempo eu vou gastar fazendo esses cálculos, e quanto de risco eu vou tomar.

      Exemplo, pode ser que eu esteja no Saara e chova. Se eu me molhar, a responsabilidade eh minha. Mas não vou planejar minha vida em torno da probabilidade de 0,05% de chover lá, e não levo o guarda-chuva; prefiro levar um antídoto pra veneno de escorpião – a probabilidade é maior e o ônus, também.

      A questão do inponderável é, então, aceitar a responsabilidade de não ter se preparado praquele evento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *