Por que você deveria ler Ficção

Uma vez, um amigo me contou uma história pra explicar o conceito de infinitos. Havia uma tribo muito antiga que tinha aprendido a contar até vinte – qualquer coisa depois disso era “um montão”. Quantas pessoas temos na tribo? Oito, dez, dezessete, vinte, um montão – opa!, pega esse um montão e leva pra começar uma tribo nova!, e assim viveram um montão de anos. Um dia, um dos meninos da tribo voltou correndo de uma caçada e disse, “estamos sendo atacados!, às armas!“, e o chefe perguntou, “quantos são os malfeitores?,” “um montão!” respondeu o menino. E foram dizimados por uma tribo com trocentos mil guerreiros.

QUANDO NOSSO MUNDO AUMENTA E NÃO SABEMOS CONTAR

Imagine que você chegou em um lugar completamente diferente de tudo que conhece. Olha pra frente e vê um espaço infinitamente aberto, um ar que se mexe muito e uma luz muito, muito forte. Mais à frente, o chão parece respirar, mas onde você está, ele te segura; um passo é mais difícil, mais demorado que o outro, seus pés não conseguem se firmar. Você cai de costas e sente muito quente, sua pele arranha e queima e a luz fica ainda mais forte. Só te resta uma opção: chorar. Muito.

Claro, hoje você sabe o que é uma praia, mas um bebê que é apresentado a ela pela primeira vez, não. E estamos falando de algo concreto, físico, perceptível e compartilhável. Agora imagine lidar com a raiva pela primeira vez. Tente se colocar no lugar de um bebê. Ele não sabe o que está acontecendo, é um território absolutamente novo pra ele – a respiração, os hormônios, o calor, a frustração, a falta. Ele não consegue explicar, não conhece esse lugar, essa parte dele. (A maior parte de nós, adultos, também não; mas não vamos nos antecipar.)

Vai demorar muitos anos e muitas raivas pra criança aprender o que está acontecendo com ela e conseguir responder a esse sentimento, em vez de simplesmente reagir. E isso vai se repetir por todas as emoções – medo, alegria, amor, tristeza – e vai escalar quando saírem do nível primário, bruto, e se tornarem mais complexas (raiva da tia; medo do avô; saudades da mãe etc). E esse é o grande papel dos contos de fada.

 

O VALOR DOS CONTOS DE FADAS

Existe um livro brilhante sobre o assunto, A Psicanálise Nos Contos De Fadas, que explica que as crianças processam sentimentos confusos através das histórias vividas pelos personagens. “Num conto de fadas, os processos internos são externalizados e tornam-se compreensíveis enquanto representados pelas figuras da estória e seus incidentes,” diz Bruno Bettleheim, autor do livro. É assim, por exemplo, que uma criança consegue processar o medo que sente de um adulto ao ler (diversas e diversas vezes) João e o Pé de Feijão, ou consegue entender que ela vai passar pelas fases de brincar, estudar, e trabalhar ao ler Os Três Porquinhos.

O maior valor dessas histórias é que, ao contrário das leis, das religiões, e das normas sociais, a ficção não te diz como agir, mas permite que você chegue por você mesmo em uma resposta (e não em ‘a’ resposta). Ao acompanhar a história, você consegue extrair significados importantes pra você e pra sua realidade, e processa melhor aquilo pelo que está passando.

Percebe que eu mudei de “criança” pra “você”, mas a lógica continuou fazendo sentido? É porque faz. Diferente de uma criança, seus processos racionais e emocionais são mais complexos, e não conseguem ser explicados ou trabalhados com versões simples de contos de fadas.

 

CONTOS DE FADAS PARA ADULTOS

A ficção tem esse mesmo papel para os adultos: tornar a “nova” realidade mais digerível, explicável, familiar. Nossas confusões internas são mais complexas e, por isso, as histórias também são. Relacionamentos amorosos, por exemplo: você pode tentar entender de diversas maneiras, mas lendo Dom Casmurro (Machado de Assis), você sente os efeitos disso. Inclusive, o debate de Capitu traiu ou não Bentinho existe não só porque as pessoas gostam de ter razão, mas porque revela muito sobre nós mesmos e nossa visão dos relacionamentos. É uma catarse coletiva.

Mesmo temas muito mais concretos são melhor explicados através da ficção e das figuras de linguagem (metáfora, metonímia, eufemismo, antropomorfização etc). Talvez o melhor exemplo seja A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que explica sua visão da União Soviética ao contar a história de animais que tomam o controle da fazenda na qual vivem. Alguns exemplos:

 

TRANSIÇÃO DA ADOLESCÊNCIA PARA VIDA ADULTA

Como você atravessou a explosão de hormônios? A angústia de não encaixar num grupo? A rebeldia contra uma vida previsível? Poucos livros capturaram tão bem esses sentimentos quanto O Apanhador No Campo De Centeio, de J.D. Salinger, que narra a volta de Holden Caulfield para casa, após ser expulso da escola em que estudava.

OBRIGAÇÕES FAMILIARES vs VONTADES PESSOAIS

A Metamorfose, de Franz Kafka, mostra como Gregor Samsa, que havia deixado de lado suas ambições pessoais pra trabalhar como caixeiro viajante pra sustentar a família, percebe-se transformado num inseto gigantesco. Acompanhamos a trajetória dele se descobrindo em seu novo eu, as reações dos familiares, e as consequências disso pra todos.

DILEMAS MORAIS

Quem tem que viver com o peso psicológico de uma decisão vai conseguir acompanhar melhor Raskolnikov em Crime e Castigo, de Dostoiévski.

EMOÇÕES COMPARTILHADAS

Harry Potter Ficção Psicanálise
“Você não gosta de Harry Potter, mas não leu nenhum dos livros?”

Você entende agora o grande sucesso de Harry Potter? Imagine-se com nove anos, lendo um livro sobre um menino que não sabe quem é de verdade e nunca se sente adequado, vai pra uma escola nova, amigos novos, e acompanhar sua trajetória por nove anos? Isso praticamente não é ficção, é um mapa de como navegar a sua adolescência! É óbvio que vai continuar a ser um sucesso.

Os exemplos de processos de segunda ordem são tão diversos quanto existem livros de ficção. Agora, pra entender os de primeira ordem (os sentimentos brutos), a ficção dá espaço pra poesia, que fala com nosso íntimo atravessando nosso racional. Quem já sofreu com pensamentos contrários às pregações da Igreja encontra liberação nos versos de Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno; quem já tentou explicar o amor encontra companhia em tantos quanto Camões, Vinícius, Pessoa, Leminski

Entretanto, nós nos consideramos seres racionais, homo sapiens sapiens, e procuramos explicar o mundo à nossa volta com textos filosóficos, artigos acadêmicos, livros de auto-ajuda, tratados econômicos, jornais e revistas e feed do Facebook. São importantes? Sem dúvida. Mas não servem pra você se você não tem vocabulário pra interpretar de maneira eficiente o que tudo isso significa, de verdade e pra você.

 

LINGUAGEM DEFINE REALIDADE

No fantástico 1984, George Orwell mostra um futuro distópico controlado pelo Big Brother. O livro é brilhante em diversos aspectos, mas pra mim é o melhor de todos em mostrar como a nossa linguagem define nossa realidade. O governo todo-poderoso da Eurásia tem diversas ferramentas de controle, inclusive a violência, mas o mais efetivo deles é a redução do vocabulário das pessoas; se você tem menos ferramentas pra experimentar o mundo, ele se torna menor e você, mais suscetível às cordas do titereiro.

Um exemplo mais brando disso é um sommelier; quantas palavras ele usa pra descrever um vinho? E você, quantas? Você pode até chamar isso de frescura, mas isso mostra o tamanho do seu mundo (em relação ao vinho e à vida).

 

POR QUE ESTOU FALANDO APENAS DE LITERATURA

Recentemente, tivemos uma discussão em família sobre o que é e o que deveria ser considerado “arte”, e hoje tenho uma visão mais ou menos organizada do que seja. Pra mim,

arte é qualquer obra que traduza uma visão de mundo e aumente o vocabulário emocional de um grupo de pessoas.

O que eu quero dizer com isso é que a arte acessa e nos faz acessar áreas não-lógicas de nós mesmos, trazendo à tona sentimentos e sensações e emoções que a razão não consegue traduzir. E existem diversas expressões artísticas, como cinema, teatro, dança etc, todas elas servindo a esse propósito.

O ponto de diferenciação da literatura é, a meu ver, o efeito direto no lado racional do cérebro. No cinema, temos imagens, sons, movimentos, falas; na dança, a expressão corporal da música, e na música, a entonação, o ritmo, as pausas. Na literatura, temos palavras. E isso obriga seu cérebro a fazer o resto do trabalho – criar as imagens, os sons, as expressões, as vozes, o cenário, as músicas; organizar as sequências, as lógicas, os nuances, os tempos; decifrar os símbolos, os significados, as sentenças. E ainda aumenta seu vocabulário e seu conhecimento de gramática e estilo, imediatamente aplicáveis no dia-a-dia em emails e postagens nas mídias sociais.

Pra mim, é uma baita de uma lista de benefícios, e eu nem inclui outros como desenvolvimento de foco e atenção, tempo de recarga de energias longe de interações sociais, o prazer de um momento de calma e silêncio – que nos dias de hoje são cada vez mais necessários pra nossa saúde mental.

 

POR QUE VOCÊ DEVERIA AUMENTAR SEU VOCABULÁRIO EMOCIONAL

Voltando aos infinitos que meu amigo me ensinou. Logo de cara, ele me disse que haviam mais de um infinito, e eu disse que isso era uma falácia, algo logicamente impossível. E ele me contou a história da tribo que contava até vinte. Que tal isso pra me fazer repensar minha realidade, pra só depois me explicar o conceito dos três infinitos que conhecemos?, e que, se um dia pousar aqui um alienígena que conheça um quarto infinito, nós seremos dizimados também?

Se você não lê ficção, você só conta até vinte, não importa quantos Ph.Ds ou dinheiros ou livros na estante você tenha. Sabe até quanto as pessoas mais bem sucedidas sabem contar?

Um montão.


Ficção Livros Psicanálise
Essa imagem representa muito bem minha visão de mundo. Leiam um montão de livros, meus amigos.

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