Pontes

Eu sempre quis fazer uma tatuagem. Que eu me lembre, cada fase da minha vida teve uma razão pra eu querer uma – ou era legal, ou era rebelde, ou era bonito, ou marcava algo importante. Mas nunca chegava ao ponto de fazer uma, e também com várias desculpas: meus pais não me deixam, eu não tenho dinheiro, eu não sei qual é a ideia, eu não sou tão descolado, eu vou me arrepender, não vai ficar legal. Então, há um mês, eu fiz uma tatuagem.

Não fiz alarde nenhum, para ninguém, nem pra minha esposa. Simplesmente escolhi o desenho, achei um tatuador que conseguisse fazer do jeito que eu queria, e apareci no dia. Eu estava pronto para essa mudança de paradigma. Eu sei, eu sei, parece algo muito pequeno pra ser considerado como uma mudança tão grande, mas a verdade é que quem diz o tamanho do abismo embaixo das pontes que cruzamos somos nós mesmos, nossa história e nossos valores, e do quão difícil é deixar um território conhecido para algo novo.

Todos nós cruzamos pontes, nossa vida inteira. De começar a fazer cocô sozinho a abrir uma empresa, de começar em uma nova escola a um novo emprego, de terminar um namoro a começar um casamento, de mudar de profissão a mudar de país, de cortar o cabelo a fazer uma tatuagem. Nós ficamos acostumados com a situação das coisas, e a familiaridade dá uma sensação de segurança, por mais incômoda que seja, e paramos de nos preocupar. Até algumas semanas atrás, eu tinha uma sobra de resina de aparelho no dente, e ficava machucando a língua. Essa situação se tornou familiar, e eu não a questionei até fazer a tatuagem – atravessar uma grande ponte fez com que essa ponte parecesse menor, e eu marquei dentista e tirei a resina no mesmo dia. Dois anos com cortes na língua, e em 15 minutos estava resolvido, e eu me questiono por não ter feito isso antes.

Na realidade, eu não poderia mesmo ter feito isso antes pelo simples fato de não questionar a realidade. Também não acho que tenhamos que questionar as realidades o tempo inteiro, sob o risco de nos desconectarmos do mundo e perder nossa agência, mas uma auto-análise de tempos em tempos pode nos mostrar bastante coisa sobre nós mesmos. É como limpar os armários de casa – ver quais roupas ainda servem e quais não servem mais, quais devem ser doadas ou guardadas, quais precisam ser lavadas ou jogadas fora, quais peças estão faltando.

Da mesma maneira, cruzar pontes demais em curtos espaços de tempo também não parece saudável – é estar fugindo de alguma coisa, e nem dar tempo suficiente pra saber qual coisa é essa, ou de enfrentá-la. Trocar o armário inteiro para um novo estilo a cada mês nos deixa sem tempo, sem personalidade, e sem dinheiro.

Quando falamos de mudanças como essas, estamos falando de uma ponte entre o que você é e o que você pode ser, ou precisa ser, e isso assusta. Você já conhece o terreno desse lado, e só pode imaginar como seja do outro lado. Você olha pra baixo e parece muito alto, e a ponte não parece tããão segura assim, especialmente quando ela parece tão longa, e você imagina se o vento vai tentar de soprar pra fora, e você pára. Estuda. Calcula. Conhece tão bem que ajuda outros a atravessarem. Mas não consegue dar o primeiro passo, e fica no território conhecido, o tempo todo imaginando como seria melhor do outro lado.

A verdade é que a única coisa que torna melhor o outro lado da ponte é o acesso a materiais diferentes – sensações, ansiedades, prazeres, medos, desconfortos, questionamentos, certezas – que vão te dar um conhecimento mais profundo sobre si mesmo. Passei uns dois anos trabalhando a questão da tatuagem na terapia, e decidi que estava trabalhando com o mesmo material e que não conseguiria resultados diferentes. Fazer a tatuagem me deu muito material novo pra trabalhar.

Acho que não existe uma fórmula pronta pra atravessar uma ponte, do mesmo jeito que não existe uma pra vida. E uma das coisas que mais desencoraja a travessia é ver quão fácil parece que as outras pessoas atravessam suas pontes, então talvez olhar para os lados não seja um reforço pra avançar, mas pra voltar (especialmente quando estamos no meio da ponte e lembramos do abismo embaixo). Mas também dá pra olhar pra outras pessoas com medo de atravessar pequenas pontes – imagine uma criança de quase um ano com medo de atravessar um pequeno fio d’água, algo pra nós tão corriqueiro quanto dar alguns passos sem segurar a mão da mãe. Muitos pais (e avós e tios e todo mundo) ficam ansiosos com a demora da criança em dar os passos, dizendo que já passou da hora. Mas, como diz uma amiga, “nunca vi criança não andar – deixa ela no tempo dela.

Nunca vi criança não andar, não correr, não pular, uma ponte de cada vez, e nós como adultos temos que entender o tempo de cada criança, de cada pessoa. Aliás, temos que lembrar que todos temos nossos próprios tempos e nossas próprias pontes, com a estrutura e o abismo que é nosso, para aquela situação. Só temos que lembrar a nós mesmos que está tudo bem, que tudo bem cair, que é só se levantar e tentar de novo. Que vamos conseguir cruzar as pontes, cedo ou tarde – e deixar a gente no nosso tempo, e não no tempo dos outros.

Quantas vezes já rugiram pra você? O que você diria pra você mesmo, hoje?

 

Essa sempre foi a minha visão, mas por mais que eu conseguisse ajudar pessoas a atravessarem suas próprias pontes, eu mesmo não cruzava muitas das minhas, e por todas as razões acima. Mas, como disse num post anterior, tudo que nós somos nós passamos adiante, mesmo não querendo, e eu não quero passar o medo de atravessar pontes para minha filha. A melhor maneira, então, é enfrentar esse medo, antes que ela nasça. E fiz a minha tatuagem. Uma ponte de cada vez. 

Atravessar a ponte não vai te livrar dos problemas, vai apenas aumentar o tamanho do seu mundo. Problemas anteriores ficam menores, mas os próximos serão potencialmente maiores – até a ponte seguinte, pelo menos. Obrigado por mais essa lição, filha!

3 Replies to “Pontes”

  1. Que lindo texto!
    Deu vontade de grifar várias frases pra voltar e reler várias vezes! rs

    Parabéns pela ponte cruzada! E pela coragem de expandir seu mundo – com pontes e com filha!

    E bem vindo a esse mundo louco de aprendizagens tão constantes e tão significativas!

    Beijos em vocês

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