Para Ser Grande

Tenho sido bastante atraído de volta à poesia recentemente, e decidi compartilhar meus pensamentos sobre essa relação da poesia com nossas vidas. Pode parecer um pouco distante da realidade e do dia-a-dia de cada um, mas a verdade é que só está distante porque nós desaprendemos a lidar com nosso lado não-lógico.

 

Uma das frases mais interessantes ditas por Carl Jung fala diretamente com o poder da arte:

O paradoxo reflete um nível elevado de intelecto e, por não forçar a representação do não-conhecível como conhecido, dá uma imagem muito mais fiel do real estado das coisas.

O papel da arte é aumentar o vocabulário emocional das pessoas. A arte acessa e nos faz acessar áreas não-lógicas de nós mesmos, trazendo à tona sentimentos e sensações e emoções que a razão não consegue traduzir. Ela dá permissão para que sintamos o que sentimos, para pensarmos o que pensamos, para sermos quem somos. A arte nos acolhe de volta à humanidade que tentamos deixar de lado com nossas racionalizações e cálculos e morais.

A arte permite que nós sejamos humanos inteiros.

Em uma sociedade que valoriza a entrega, o tangível, as posses, o quantificável, tentamos a todo instante e custo suprimir partes de nós mesmos que (acreditamos) não serão bem aceitas pelos nossos pares. Pensamentos como homem não chora retiram a possibilidade de sermos emotivos – e eu sinto muito por todos os homens que não choram ao ver um bebê nascer.

Como usar a poesia para ser uma pessoa melhor

Eu gosto particularmente dessa poesia do Ricardo Reis (pseudônimo de Fernando Pessoa) porque ela é um mapa, quase um manual de instruções bastante direto para uma vida plena. E entendendo o mapa, poderemos dar um passo dentro desse novo território que escondemos no nosso estar ocupado o tempo todo, ou seja, nosso interior. Entendendo esse mapa, abrimos uma porta para dentro que há muito fingimos que não existe.


Para Ser Grande, Sê Inteiro

 

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

 

— Ricardo Reis

 


Da Poesia de Ricardo Reis

Só a primeira frase já bastaria pra nos fazer parar e repensar nossas ações e objetivos. “Para ser grande, sê inteiro.” Essa é uma afirmação forte, que não dá margem para discussão ou discordância. Não existe outra maneira de ser grande, de ser uma pessoa melhor; somente na nossa integridade, aceitando nossos pontos bons e nossos pontos de melhoria, nossa luz e nossa sombra, nossa razão e nossas emoções, só assim seremos tudo o que podemos ser. Na verdade, só assim seremos tudo que queremos ser (i.e. completos) – afinal, essa é a busca de todos, de uma maneira ou de outra.

Então ele dá a dimensão disso na frase seguinte: “Nada teu exagera ou exclui.” Quando somos inteiros, não excluímos de nós as partes que nós não gostamos; não escondemos do mundo aquilo que dizem não querer ver. A mãe chora no puerpério pelo amor pela vida, manifesta no seu bebê, e pela dor da morte daquela que não é mais somente ela, somente uma – e somente assim poderá se entregar sem rancor nem culpa à maternidade e aos cuidados da cria (agradeço à minha esposa por me ensinar sobre o puerpério; abriu muitas portas de entendimento pra mim).

Da mesma maneira, “nada exagera“; não postamos fotos photoshopadas para buscar mais likes; não engrandecemos nossos currículos para buscar salários melhores, nem falamos mais grosso para impor respeito. Não temos atitudes que, no nosso íntimo, sabemos que estão além daquilo que realmente somos. Temos a coragem de ser quem somos, e não quem os outros esperam que sejamos – para mais ou para menos.

(Me veio à mente agora a música Any Way You Want Me To Be, do Elvis Presley. Normalmente é tida como uma música de amor, mas é uma das mais tristes já escritas – não é sobre amor, é sobre a total falta dele.)

Na estrofe seguinte, Reis diz como fazer isso, de como ser grande, inteiro. Afinal, se essa é a busca real, mais íntima de todos nós, é óbvio que tentemos conseguir isso a todo momento, mesmo de forma inconsciente – e é aqui que acontecem os maiores problemas. Sem saber como conseguir isso, recorremos ao rápido, ao externo, ao comprável, ao familiar. Às drogas, para aliviar as dores de um passado mal-resolvido. Cada vez mais pessoas consumindo o que não precisam como forma de expressão (compras, comida, seriados, novelas – qualquer coisa que nos distraia da nossa dor). Inflamos nossos egos pra proteger nossos corações.

Mas Ricardo Reis dá bem claro o caminho para a complitude, sem atalhos nem remendos. E faz isso separando nosso interior (pensamentos e emoções) do nosso exterior (nossas ações refletidas no mundo) – e conciliando esses dois lados ao colocá-los na mesma estrofe, como um yin-yang indissolúvel e completo. “Sê todo em cada coisa” é aceitarmos nosso “eu inteiro”, sombra e luz, em cada momento da nossa vida, sem exagerar ou excluir; “Põe quanto és no mínimo que fazes” é ousar ser esse “eu inteiro”, é ter coragem de mostrar esse “eu inteiro” nas nossas interações com o mundo – nas nossas DRs em casa, nas nossas reuniões de trabalho, no nosso convívio com os colegas, no trânsito quando fecham o nosso carro.

Ricardo Reis então fecha o poema mostrando o que pode ser o resultado dessa jornada para dentro, e a escolha da figura é muito interessante. Imaginando um território aberto, vasto, quase ameaçador (praqueles que não têm um mapa, ainda mais), Reis intui que nosso instinto é procurar por sinais familiares, compartilhados, símbolos reconhecidos por todos, e que nos coloca em comunhão com toda a humanidade, todos olhando para o céu. Nesse sentido, talvez a figura do Sol fosse nossa escolha mais óbvia para representar esse “inteiro”, essa luz, esse iluminar, mas ele percebe que não podemos olhar diretamente para o Sol; não é pra isso que ele serve, mas para permitir que as atividades sejam feitas, que possamos navegar às claras no dia-a-dia, encontrar nosso caminho nesse território externo. Mas é à noite, no silêncio, no escuro, no íntimo, que o trabalho de auto-conhecimento, de navegação para o nosso interior acontece.

A escolha fica, então, entre as estrelas e a Lua, e a opção por esta é muito acertada. Por mais que as navegações, por terra e por mar, sejam guiadas pelas estrelas, não são elas que nos unem na condição humana, porque não todos veem o mesmo céu à noite, da mesma maneira que nossas realidades individuais não são às mesmas que outros – diferentemente da Lua, igualmente visível em qualquer ponto da Terra. Além disso, ao trazer essa imagem ele nos lembra de que a Lua “em todo lago brilha“, retomando a primeira frase, “Para ser grande, sê inteiro“, de modo que nós nos tornamos a Lua em suas fases, iniciando por nova, talvez quando primeiro entramos nessa jornada, desconhecendo o brilho; passando para crescente, com o tempo, ao reconhecer que há um caminho e um progresso natural até que encontremos nosso “inteiro”; chegando ao estado de cheia, completa, brilhante, iluminada em todos os lagos; e reconhecendo que também minguaremos e deixaremos o céu, o que é natural e cíclico e parte da natureza.

A figura do “lago” também é peculiar, especialmente para um Português, da terra das grandes navegações e dos Lusíadas, dados a grandes aventuras, aos mares abertos, ao desconhecido – de novo, uma contraparte interessante, como o Sol e a Lua. Para Reis, não precisamos nos lançar assim para descobrir novos territórios, mas é na serenidade, na calma, que conseguimos olhar pra dentro; a Lua não se reflete nitidamente nas águas agitadas do mar e da tormenta e dos grandes empreendimentos, mas nas águas calma dos lagos.

Por fim, ele deixa claro, na última frase, que esse é o caminho da elevação humana – “porque alta vive“, desprendida das relações mundanas. Assim como ela tem fases, e minguará, Reis entende que as fases da Lua representam um trabalho constante de re-entendimento do que é o nosso inteiro – só talvez sendo plenamente inteiro quando formos “todo em cada coisa“, colocando quanto somos em tudo que fizermos. Talvez, nesse momento, não estejamos mais na planitude da Terra, e aí seremos realmente grandes. Quem sabe.

 

Como Utilizar Esse Mapa

Essa leitura é bastante interessante, mas tente não se prender nos detalhes. A poesia é como um koan, uma história zen feita não para ser entendida e decifrada, mas pra nos fazer pensar – como Jung disse, é um paradoxo. Não pense na poesia como um passo-a-passo, dez maneiras de alcançar a felicidade.

Pense na poesia como uma conversa íntima com você mesmo. E não se sinta um maricas ou um babaca por fazer isso – todo mundo faz, e só põe esses rótulos negativos quem tem medo de aceitar que é humano. Deixe de lado a razão.

 


Esse é o primeiro de uma série de posts que estou escrevendo sobre algumas das poesias que mais me marcaram. Se você gostou e quer se avisado de quando vierem mais posts, deixe seu email ou escreva pra contato@fernandodias.net  🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *