Os momentos em que somos inteiros

[Nota: esse post é uma re-edição; por falha minha, ele saiu da timeline.]

Era de noite – não muito tarde, mas o suficiente pras ruas do centro estarem quase desertas – fazendo com que caminhar por baixo dos toldos para escapar da chuva gelada de Curitiba fosse relativamente fácil. Estava distraído, ouvindo um audiolivro, quando trombei forte, de frente com alguém. No instante que tive para entender o que tinha acontecido, ele já estava gritando e ameaçando um soco.

Minha reação foi colocar a mão no peito dele e dizer, “Shhhhhh…. tá tudo bem. Tá tudo certo. Pode ir agora.” Ele ficou parado, baixando lentamente a mão e perdendo a expressão de raiva no processo, e ficou parado até eu dobrar a esquina.

Alguns segundos depois, já na rua principal, senti a adrenalina entrando em ação – coração acelerado visão e audição focados palpitação no pescoço – mas foi um efeito retardado, surgido apenas quando pensei no perigo potencial que havia na situação; em retrospecto, conseguia lembrar que ele estava alterado (bêbado ou drogado) e poderia ter uma faca ou uma arma. Poderia ter sido feia, a situação, mas não foi. O que mais prendeu a minha atenção nos dias que se seguiram, muito mais que o perigo, foi a minha reação.

Eu estava calmo, seguro, e me senti em perfeito controle da situação. Algo que, com alguma preparação e dentro de uma situação conhecida e prevista (fazer uma apresentação, conversar sobre carreira, dar uma aula), eu poderia chegar perto de conseguir – perto, mas não exatamente. Minhas mãos suariam, eu estaria em estado de alerta, responderia a perguntas com um leve tremor na voz, faria alguma piada auto-depreciativa, qualquer coisa para proteger minha integridade física e psíquica, em um constante estado de “fight or flight“, ou “lutar ou correr”[1].

Mas não naquele momento. E é exatamente isso que me fez pensar. Por que eu tive aquela reação? Eu, que sempre fantasiei em sair na porrada com os fura-catracas dos ônibus; eu, que entro em modo “fight or flight” quando vou apresentar alguma coisa; eu, que tenho medo de armas?

O que mais me chama a atenção, relembrando da cena, é o quão natural foi minha reação. Não sei se foi automática, porque eu estava absolutamente presente, mas as ações foram de tal modo trazidas à tona pelo meu inconsciente que a naturalidade ainda me impressiona. Eu sei que baixar o tom da discussão reduz os ânimos exaltados; que estender a mão aberta é sinal de pacifismo; que o toque acalma e domina e mantém o controle sobre a distância; que o contato olho no olho transmite a intenção; e talvez ainda outras coisas que aprendi surgiram naquele momento.

Consigo lembrar de outros momentos da minha vida em que tive reações similares. Por exemplo, na minha última entrevista para o programa de trainees, com o CEO, eu dei respostas completamente fora do livro – quando ele le me perguntou, “Quais são seus principais valores?”, eu respondi “Eu acho que essa pergunta não faz sentido; nós temos tantos e que variam tanto de intensidade em cada momento que é uma pergunta meio inútil numa entrevista”. Ou na segunda vez em que saí com uma menina e perguntei, antes do nosso primeiro beijo, “Você se vê numa relação de longo prazo comigo?”. Olhando pra trás, talvez se eu tivesse me preparado pra essas situações, eu teria tido resultados bem diferentes.

A primeira coisa que esses e alguns poucos outros momentos têm em comum é o quão “inteiro” eu estava em cada um deles – absolutamente presente, consciente, fazendo e dizendo o que precisava ser feito e dito (em oposição a planejar todos os movimentos e resultados possíveis). É uma sensação indescritível, de verdade. Estar tão no flow[2], tão na onda, que é impossível fazer qualquer outra coisa. É como se você estivesse em harmonia com o universo.

Pode parecer um exagero, mas acredito que seja verdade. Inclusive, é essa a segunda coisa que vejo em comum nessas ocasiões: o sentimento de naturalidade. Ou, melhor dizendo, de tão natural você não sente. É como se você simplesmente fosse levado pela onda, sem esforço.

Acredito que essa segunda proposição seja consequência da primeira. Não existe distinção entre a sua imagem e quem você é – você simplesmente é. Você não projeta a imagem de um ricaço e se endivida pra trocar de carrão todo ano. Você não se imagina entrando em brigas que você sabe, no fundo, não querer entrar. Você não deixa outras pessoas levarem mérito em cima do seu trabalho se escondendo atrás de qualquer desculpa que você cria pra você mesmo. Você não força a barra pra ser a pessoa mais animada do boteco sendo que você é introspectivo.

Também não existe distinção entre seu eu passado, seu eu futuro, e seu eu presente – você simplesmente está. Tudo o que você faz, agora, respeita seu passado e ajuda seu futuro, e seu passado e futuro ajudam seu presente. Você está tão consciente de quem você é e de onde você está e do que está acontecendo que as suas decisões e ações são fluidas e fáceis.

Você é. Você está. E, nesse instante, você é inteiro. (O inglês ajudaria bastante aqui – o famoso ser/estar no mesmo verbo, to be, encerra bem o conceito.)

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

— Ricardo Reis (F. Pessoa)

 

Não estou dizendo que você não deva planejar sua carreira nem suas finanças nem outras coisas, mas sim pode deixar de ter a ilusão de controle total – você não tem, não importa tão brilhante você seja em estratégia – e aceitar que você é parte de um universo sobre o qual não tem nenhum controle e que está cagando e andando pra você[3].

Concordo que seja muito difícil entrar nesse estado de harmonia consigo mesmo, e muito mais difícil permanecer nesse estado, mas vale a pena o caminho pra conseguir isso. Porque quando você consegue o resultado é o melhor possível. Você evita uma briga  desnecessária. Você consegue a vaga de emprego. Você se casa com a menina que respondeu “sim, eu me vejo em um relacionamento de longo prazo com você”, e vocês ficam grávidos de uma menininha linda, que tanto vai te ensinar. Você se sente inteiro. E talvez, quando isso acontece, você se torna igual ao universo, em que nada exagera ou exclui. Mesmo que numa rua deserta de noite e na chuva.

 

 


1. Uma resposta do nosso cérebro mais primitivo feita para preservar a vida em situações extremas.
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2. Conceito do psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi. Segundo ele, o  flow é um estado mental de operação em que a pessoa está totalmente imersa no que está fazendo, caracterizado por um sentimento de total envolvimento e sucesso no processo da atividade. Veja a TED Talk dele:

[ted id=366 lang=pt-br]
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3. Eu li o livro “The Universe Doesn’t Give A Flying Fuck About You”, de Johnny B. Truant, meio despretenciosamente, mas vale a leitura. E aqui de novo o inglês ajuda: não acho que exista uma tradução que capture a emoção de “Flying Fuck”, algo como “um Foda-se Voador”. De qualquer maneira, segue o site dele:

The universe doesn’t give a flying fuck about you


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