Menino de Verdade.

Todos nós conhecemos a história do Pinóquio – um boneco de madeira que tem um nariz que cresce toda vez que conta mentira. Certo? Bem, não.

Isso é uma característica. A história do Pinóquio é a busca por tornar-se um menino de verdade. Eu acho isso particularmente fantástico como metáfora pra nossa vida. Vamos por partes.

Cordinhas

Pinóquio era um boneco de madeira, um títere, uma marionete. Isso implica em que, sem refletir sobre sua própria existência, Pinóquio não pode escolher o que quer para si; todos os seus atos, gestos, movimentos, expressões, nada do que ele trazia para o mundo era ele próprio, mas outra pessoa. Como disse Sócrates,

A vida não examinada não vale a pena ser vivida.

Nós somos bonecos de madeira. Enquanto não pensarmos por nós mesmos, tomarmos nossas decisões, fizermos nossas escolhas, nós seremos controlados por forças além do nosso alcance. O pior disso é que vamos encontrar desculpas pra isso que nem sempre são verdadeiras, mas que ficamos repetindo e parecem verdade. Enquanto não assumirmos a responsabilidade pela nossa vida, seremos apenas marionetes. Ou, como disse Jung,

Enquanto você não fizer o inconsciente consciente, isso irá controlar sua vida e você chamará de destino.

Joelhos

Pessoas de verdade se machucam. Muito. O tempo todo. O grande problema é que somos ensinados desde cedo (“homem não chora”) que vulnerabilidade é sinal de fraqueza. E nos esforçamos (muito, o tempo todo) pra não sermos vulneráveis. Temos que ser o mais forte, o mais rico, a mais gostosa, o mais inteligente; temos que ter o melhor carro, o melhor cargo, o maior número de seguidores, o maior investimento na startup; temos que ser quem mais transa, mais bebe, mais malha, mais reza, mais sofre.

Tudo fumaça e espelhos pra esconder quem nós realmente somos. Gastamos uma energia imensa em sustentar imagens que nos protegem do mundo exterior que chegamos absolutamente exaustos no final – do dia, da semana, da vida.

O absurdo disso é que aplaudimos de pé quando outras pessoas se permitem ser vulneráveis (TED Talks?, alguém?). Vemos como coragem nos outros o que vemos como fraquezas em nós mesmos. Adivinha? Um menino de madeira cai e não rala o joelho, não sangra e não dói; meninos de verdade se arrebentam o tempo inteiro.

Objetos Brilhantes

(O crédito dessa vai pra minha psicóloga, Alcione; ela me chamou de Pinóquio por conta disso.)

No primeiro dia que minha filha deu seus primeiros passos sozinha, ela teve uma noite de sono horrorosa. (Minha esposa e eu também.) Por quê?, a gente se perguntou. Ela andou! Ela é livre! O brilho no olho dela quando conseguiu foi o de alguém quem renasceu para as cores do mundo.

Então por que ela não dormiu bem? Porque o mundo dela ficou muito, muito maior. A quantidade de experiências que ela tem e pode ter do mundo ficaram exponencialmente maiores, e ela não conseguiu processar essa mudança de paradigma. As cordinhas foram cortadas.

Claro, dois dias depois ela já estava explorando a casa toda como se nada houvesse acontecido. Acontece com a gente. E aqui entram os objetos brilhantes: qualquer coisa que fosse extra-ordinária chamava a atenção dela e ela parava o que estava fazendo pra perseguir aquele barulho, cor, brilho, voz etc. O Pinóquio também era assim; quando ganha umas moedas pra fazer shows em vez de ir para casa, ou quando vai para o parque de diversões em vez de ir pra escola.

E nós somos assim também, quando recebemos uma oferta única, imperdível, de ganhar mais dinheiro, aumentar o pênis, ser promovido, ganhar a atenção do menino mais popular, uma linha de crédito fantástica pra trocar o carro. Tudo que temos que fazer é assinar aqui ou concordar com os termos aqui ou colocar o email aqui. E então recebemos o guia das “Dez coisas que todo empreendedor precisa saber”, “Como conquistar o gato em três dias”, “Não marque suas horas extras e você pode ser promovido em breve”, “me dá seu dinheiro que eu te ensino como ganhar 100 vezes mais – garantido!”, “você leva jeito pra isso, você tem cara de empreendedor, eu posso sentir isso.”

E nós, Pinóquio, desviamos do caminho. Meninos de verdade veem essas distrações, mas resistem a elas.

Grilo Falante

(Porque esse post é uma grande propaganda.)

O caminho pra se tornar um menino de verdade não é fácil. Uma visão de alguém de fora pode ser muito valiosa nesse trajeto. Como diz Brené Brown,

Não podemos fazer “vulnerabilidade” sozinhos.

Somos bombardeados pela cultura do “eu me viro sozinho”, e pedir ajuda é um sinal de fraqueza. O que é uma grande bobagem. Alguém já inventou a roda, alguém já passou pelo que você está passando. Perpetuamos uma noção adolescente de que “ninguém entende!, meu sofrimento é muito único porque eu sou um floquinho de neve único e especial!, ninguém pode me ajudar!” (o que é claramente uma bobagem). Tudo pra, de novo, nos proteger, nos fazer invulneráveis, de madeira.

Uma visão de fora traz perspectiva pra coisa toda. Psicólogos não são infalíveis; coaches não são seres de outra dimensão. Amigos de verdade não são surdos às nossas dificuldades.

Meu amigo Igor me disse que eu sou uma busca ambulante pelo autodesenvolvimento. Parece verdade. Mas esse não é um caminho solitário. Eu tenho na minha esposa minha maior companheira de caminhada, mas também tenho meus pais e irmãos, dois coaches (um aqui e uma gringa), alguns anos em psicólogas, alguns poucos bons amigos. Com todos eles eu posso me permitir ser vulnerável (na verdade, essa é uma caminhada recente – mais sobre isso em algum outro post) e avançar no caminho de me tornar um menino de verdade. Porque esse é o único jeito. Só é menino de verdade quem está disposto a se machucar, e é bom ter com quem treinar.

Conclusão

Tenho sentido isso na pele cada vez mais. Afinal, empreender é se colocar numa posição absolutamente vulnerável. Sair da segurança de um emprego público, de uma instituição grande e respeitada e com benefícios e sindicatos e horário pra entrar e sair e ter férias – tudo isso pra perseguir uma ideia que tem 90% de chance de fracassar. Mas como a gente aprende nessa vida de empreendedor! Não só sobre o negócio, mas sobre a gente mesmo. É um mergulho forçado nas nossas áreas com mais sombras.

Claro, não é o único jeito de se expor e se testar. Esporte, carreira, gravidez, ano sabático etc; tudo que fazemos pensando em nos tornar melhores como pessoas e profissionais passa necessariamente pela vulnerabilidade, pelo desconhecido, pela jornada de transformação de boneco de madeira em menino de verdade.

Então, se você quer ser um menino de verdade, reflita sobre esses pontos. Converse com alguém com quem você se sinta confiante o suficiente pra se deixar ser vulnerável, até você conseguir ser você mesmo “lá fora”.

Vai por mim, eu estou passando por isso, sei que a travessia é difícil, desconfortável, e assustadora, mas o outro lado vale a pena. Você vai encontrar o seu melhor “eu”.

Até a próxima,

Fernando Dias

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