Madrugada

No último post, falamos sobre o papel da arte, que é nos acolher de volta à humanidade, e como a poesia pode ser um mapa para navegar nessa jornada de volta. O Buda disse, “a maneira como vivemos nossos dias é a maneira como vivemos nossas vidas”. Talvez, então, usar o dia como metáfora pra essa jornada possa ser bastante proveitoso.

E nossos dias não começam quando acordamos, mas na madrugada.

A Madrugada

Assim como a nossa tendência nesse mundo hiper-ativo é contar a jornada só com os primeiros passos, nós pensamos o nosso dia a partir do momento em que acordamos. Na verdade, nossa relação com o dia começa antes, de madrugada. No poema Para Ser Grande, Sê Inteiro, discutido no último post, vimos que Ricardo Reis traz a imagem da noite como o momento de intimidade consigo mesmo, de maneira a entender o próprio tamanho do nosso inteiro. “…é à noite, no silêncio, no escuro, no íntimo, que o trabalho de auto-conhecimento, de navegação para o nosso interior acontece“.

Muitas vezes nos referimos ao tempo em que passamos dormindo como inútil, desperdiçado; uma falha na programação. Nós achamos o máximo quando lemos sobre pessoas que dormem quatro horas por dia, e tentamos sempre achar maneiras de chegar mais próximos desses semideuses.

(Eu tenho particular pena dos empreendedores, vítimas dessa desconexão com o sono.)

É durante o sono que descarregamos o excesso de informação acumulado no dia, preparando o cérebro pra mais um dia de trabalho árduo com seus cálculos e suas interações. E a ciência vem comprovando cada vez mais a importância fisiológica dessa restauração noturna, com as produções de hormônios de todos os tipos necessitando desse estado de entrega total.

Disse David Whyte, “dormir é vulnerabilidade e intimidade. Dizemos cair no sono como referência à total perda de controle, e dormir com alguém é uma das experiências mais íntimas que podemos ter.” Vulnerabilidade e intimidade são duas qualidades que (conscientes ou inconscientes disso) trabalhamos pra não ter num dia normal — com medo de pessoas se aproveitarem de nós no trabalho, de fazermos papel de trouxa na frente dos amigos, de sofrer uma desilusão amorosa. E de tanto forçarmos essas duas coisas pra não acontecerem durante o dia, esquecemos de quão essenciais elas são pra nossa integridade física e mental, e especialmente para o sono; é então que nossas piores insônias acontecem.

Na pior das hipóteses, nossa relação com a madrugada é ainda mais crônica: passamos a vê-la como um desperdício de tempo — pra que dormir se temos tanto a fazer e a entregar? Nesse caso, é necessário reavaliar esse relacionamento que, no fim, é com a gente mesmo. E a maneira como lidamos com essa porção “inútil” do dia, portanto, vai influenciar diretamente em como lidamos com o restante dele.

 


Música

 

Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada…
(Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua

a minha vida
num chão profundo!
raiz prendida

a um outro mundo.)
Rosa encarnada
do sonho isento,

muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento…
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento…

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada…

 

* Vale a pena reler ao som de Clair de Lune, de Claude Debussy:
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Da Poesia de Cecília Meirelles

Me veio colocar a Clair de Lune, de Debussy, porque a primeira reação ao reler esse poema foi uma frase do compositor: “Música é o silêncio entre as notas. É como imaginar a respiração apenas ao inspirar (explodiríamos, acho) ou expirar (não sei o que aconteceria; abriríamos um buraco negro?). Quando pensamos na respiração, esquecemos de dois momentos cruciais: as pausas entre a inspiração e a expiração.

É pra dentro desse momento que Cecília Meirelles nos traz. Ou melhor, pra busca dessa transição, desse deixar-se; aquele silêncio entre a consciência alerta e a inconsciência do sono. Todos já passamos por uma noite de insônia, então sabemos o efeito devastador que isso tem pro nosso dia seguinte, mas ela não lamenta não conseguir dormir. Ela decide investigar esse momento único, essa transição; em vez de lamentar (“Noite perdida,“), ela aproveita a oportunidade (“noite encontrada, / morta, vivida, / e ressucitada…“).

Mas, como em qualquer prática meditativa, contemplativa, ela também é trazida de volta ao ponto de sofrimento. Em segredo, pra que ninguém ouça e veja e acorde (como as mães tendem a fazer em suas casas quando têm insônia), ela pede a ajuda da Lua para que ajude-a a entrar em contato com a noite, o lado escuro, “mostra-me a sua / sombra escondida,já que sua cabeça parece continuar agarrada aos pensamentos e materiais e cálculos de passado (ontem) e futuro (amanhã) (“que continua / a minha vida / num chão profundo! / raíz prendida / a um outro mundo“).

É interessante ver como ela nutre uma relação com o seu lado instrospectivo, sincero. Estar em harmonia com a noite é, diz David Whyte, manter uma amizade secreta com tudo aquilo que não é do plano material, iluminado pelo Sol do dia; é conseguir reduzir os ruídos sonoros e visuais e relacionais para saber o que é de verdade. É estar bem consigo mesmo para poder se relacionar bem com os outros, sem se humilhar nem se engrandecer.

Também interessante a figura da rosa encarnada na poesia. Se entendemos o dia como a expiração – porque nos colocamos e agimos no mundo – a imagem da rosa na noite é bastante pertinente: não só é intacta, não-tocada pela luz do dia (pelas agendas de outras pessoas), mas intuimos inspirar o seu perfume, que surge sem esforço consciente; abrimos mão do toque em favor do perfume, do duro em favor do delicado, da lógica em favor da arte.

Então temos uma estrofe de apenas um verso, “é tudo vento…“. Esse é o ponto de entendimento dela sobre seu relacionamento com o dia e a noite, o introspectivo e o social: é o final do intervalo na respiração entre a inspiração e a expiração, que se inicia na estrofe seguinte, aquela segurada no ar antes da descida. Ela entende que tudo ao seu redor é passageiro, efêmero, como uma música e suas notas têm seu início, meio, e fim. E basta um verso na estrofe, como um instante de prender a respiração; não há o que explorar aqui, foi a revelação, o insight que a noite de trouxe, direto e claro. É tudo etéreo. É tudo mudança. “É tudo vento…

… e que venha o dia, a manhã, a alvorada. Será um dia diferente, porque ela se re-encontrou com seu lado íntimo, noturno, autêntico, presente: “Ai da alvorada! / Noite perdida, / noite encontrada…”

 

Como Utilizar Esse Mapa

A noite e o sono devem ter espaços iguais aos nossos esforços de controlar o dia. A noite é a base pra nossa humanidade, nosso senso de tranquilidade e de compaixão. Sem uma madrugada bem vivida, o dia para o qual acordamos passa a ser só mais uma tarefa a ser cumprida. Pra viver um dia que valha a pena ser vivido, devemos tratar a noite com respeito, nos preparando pra ela como faríamos com qualquer coisa que valha a pena; entramos nela conscientes (mindful), e saímos dela conscientes de que levaremos para o dia tudo o que passamos ali, para onde possamos trazer sentido lógico pras nossas vidas.

 

 

 


Este é o segundo de uma série de posts que estou escrevendo sobre algumas das poesias que mais me marcaram. Se você gostou e quer se avisado de quando vierem mais posts, deixe seu email ou escreva pra contato@fernandodias.net 🙂

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