Limites

[Nota: esse post é uma re-edição; por falha minha, ele saiu da timeline.]

Quem é você? Se você respondeu essa pergunta sem pensar muito, aqui vai um desafio interessante: tente se apresentar sem usar sua memória. Vamos ver como seria isso. Meu nome é – não, seu nome é memória –e tenho – números e tempo também são memória. Sou formado em – também não pode. Moro em (memória), trabalho como (não), e faço (não, não, e também não). Gosto de (não pode) e, nos fins de semana, (também não). Meus livros e filmes favoritos são (nenhum deles pode), e meus planos pros próximos anos são (planos pro futuro também são memória e, portanto, não pode).

E aí? Conseguiu?

.

Eu acho que não. Mas tudo bem – é impossível se definir sem usar a memória. Na verdade, definir é necessariamente fazer uma distinção entre coisas conhecidas. Sabemos o que é luz, e conseguimos definir o que são lâmpadas e o que são velas e o que é o sol e as estrelas. Sabemos o que são roupas e acessórios e definimos modas e estilos. Conseguimos diferenciar o bem do mal. Conhecemos o tempo e o dividimos em partes iguais, de muitas maneiras diferentes. O Norte e o Sul e o Leste e o Oeste. Sabemos achar o centro de qualquer coisa. Mas e quando não há limites? Onde fica o centro?

.

Cogito

Talvez essa tenha sido a pergunta que se fez Descartes quando disse “penso, logo existo.”¹ É realmente estranho achar-se desprendido das nossas âncoras que nos fazem quem nós somos – as nossas memórias. Precisamos de certezas para nos localizarmos no universo. Precisamos de parâmetros para nos considerar seres humanos, únicos e especiais como somos. E precisamos disso para acalmar nossos egos.

Afinal, sem saber onde estamos, como saber quem somos? Ou ainda, se somos? Como disse Antoine de Saint-Exupéry, “as pessoas grandes adoram números”² – eu leio certezas. Ou provas.

Como podemos provar que existimos? Se todas as nossas certezas se provassem erradas, quem seríamos nós? Imagine algo como no filme Matrix³, mas numa escala muito maior – afinal, Neo continuava sendo um ser humano, homem, com a mesma aparência e personalidade; e se nada disso continuasse? E se não existisse um mundo fora da Matrix?

.

Ergo

Se seguimos esse raciocínio, no limite tudo o que conhecemos é questionado, restando – bem, nada. Só um pontinho (nós) em algum lugar de um plano infinito no tempo e no espaço.

No decorrer das nossas vidas, vamos atribuindo significados a nós e ao mundo que nos cerca, e isso nos conforta e nos dá sentido. Chamamos a essa série de significados que gravitam em torno de nós de “ego” – definido por Freud como um conjunto de funções psíquicas como julgamento, tolerância, teste de realidade, controle, planejamento, defesa, síntese de informação, funcionalidade intelectual, e memória4. Em outras palavras, é a nossa parte racional humana localizando nossa existência em um universo de diversas dimensões.

Retire essas dimensões e voltamos ao ponto em um plano infinito. Percebe como nosso ego se assusta com essa perspectiva? Mas e daí? O que eu vou fazer? Praonde eu vou? E depois?  O que eu devo fazer? É um lugar bonito? Escuro? Vou me sentir bem?

Abrir mão dessa “prova de existência” é a grande chave. Existimos – ponto. E nessa mesma perspectiva existem todas as coisas, conhecidas e desconhecidas.

 

Sum

Por que as pessoas grandes adoram certezas, como números e memórias? Porque elas dão a ilusão de controle. Quando você se liberta da necessidade de controle, você se abre para um universo muito maior do que aquele que você consegue imaginar. Você se sente inteiro,  tudo que você faz passa a ser absolutamente natural, e “ser” e “estar” passam a ser a mesma coisa. Quando você se liberta da ilusão de controle, você se liberta do medo de errar, de morrer – de qualquer medo, na verdade. Que você esteja respirando agora, apesar de todos os erros no passado, é uma prova disso. Isso não exime você da responsabilidade sobre o que acontece com você; na verdade, isso traz ainda mais realidade para essa perspectiva ao centralizar em você mesmo os acontecimentos. Só a partir de uma auto-análise verdadeira, de um auto-conhecimento profundo, de uma centralização, conseguimos vislumbrar a nossa existência.

Veja o exemplo de BJ Miller, em uma das melhores TED Talks já vistas:

[ted id=2325 lang=pt-br]

Repare que o que ele propõe é que você consiga se descobrir ao chamar a responsabilidade para si. Então você consegue rever sua vida e decidir o que é prioridade – você traz o seu foco para o presente, para o que você está sentindo nesse exato instante. E, ao fazer isso, você vai retirando dimensões que só atrapalham na sua conexão consigo mesmo; tira eixos que não fazem sentido e aceita o fim das certezas, o fim dos números, do tempo, dos eixos, da memória, do ego, das dimensões. Aceitar a morte é, no fim, aceitar o fim dos limites.

 

Mas então quem sou eu?

Seguindo esse raciocínio, por que deveríamos nos preocupar em fazer planos, controlar nosso orçamento, estudar etc?

Pra mim, a chave é não se definir pelas suas memórias. Isso quer dizer que fazer planos e economizar para comprar uma casa é excelente, mas se você se definir com base nisso (i.e., “eu sou aquele que vai comprar uma casa”), você está se definindo como algo futuro, não presente, e portanto sem capacidade de agir sobre o presente. E o que acontece com você quando comprá-la? Ou não comprá-la? Estaria se definindo como algo passado, também não presente e sem agência.

Quando retirar todas essas definições passadas e futuras, você vai ver quem você é realmente, agora. Como isso é? Não sei, não cheguei lá ainda. Mas sigo trabalhando para descobrir.

One Reply to “Limites”

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *