Lama na Estrada II

Mais uma interpretação do meu koan favorito, “Lama na Estrada”.

“Tanzan e Ekido estavam viajando juntos, e uma chuva pesada começou a cair. Chegando em um ponto particularmente castigado, eles encontraram uma adorável moça que não conseguia passar por uma grande poça de lama que se formara na estrada.

‘Venha, menina,’ disse Tanzan e, carregando-a nos braços, atravessou a poça, mantendo a moça limpa.

Ekido permaneceu calado pelo restante do dia, até que chegaram a um templo, tarde da noite, onde dormiriam. Então não conseguiu mais se conter e disse, ‘Nós, monges, não devemos nos aproximar de mulheres,’ ele disse a Tanzan, ‘especialmente das jovens e bonitas. É perigoso. Por que você fez aquilo?’

‘Eu deixei a moça lá,’ respondeu Tanzan. ‘Você ainda a está carregando?'”

Coloque-se no lugar de um recém-nascido: absolutamente tudo é novo. Você não tem pontos de referência pra saber o que é bom ou ruim, e isso é bastante assustador, mas aos poucos você vai criando esses pontos e a vida vai ficando mais fácil – até surgirem novas situações onde tudo é novo, e o ciclo recomeça.

Sem saber o que é bom ou ruim, bem ou mal, e sem muito tempo pra experimentar e refletir, escolhemos filosofias prontas pra seguir. Religião talvez seja o exemplo mais direto disso, cada uma com seus próprios pontos de referência (beber ou não beber, carne de porco ou não carne de porco, matar ou não matar etc), mas isso vale pra qualquer estrutura pré-definida de encarar a vida – workaholics, torcidas organizadas, escolas montessorianas, hedonistas de sofá, moralidade provinciana etc.

Isso, claro, libera bastante energia mental pra agir sobre o mundo. Quando não precisamos refletir sobre qual ação tomar diante de uma situação, reagimos mais rápido, nos estressamos menos, e podemos usar a reserva de energia quando necessário – notavelmente, diante de situações novas.

Além disso, quando você segue uma filosofia pré-formatada, qualquer pessoa que também a siga vai entender que tudo o que você pensa e faz passa a ser Domínio Público. Na verdade, qualquer pessoa vai fazer isso, independente de segui-la ou não, porque a sua filosofia pré-formatada vai se chocar contra a deles, e isso balança os pontos de referência da vida deles.

No entanto, como disse Platão, “a vida não questionada não merece ser vivida.” Afinal, pra quê você veio aqui? Se você viveu a vida que outra pessoa definiu pra você, quem foi você? Questionar tudo o tempo todo não é eficiente, mas não questionar nada é ainda pior.

Não tenha medo em pisar fora dos preceitos da filosofia que você escolheu seguir, se fazer isso estiver de acordo com a sua Filosofia Interior.

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