A REAL razão pela qual os trabalhadores da Geração Y são infelizes

Uma das repercussões mais interessantes do Friday Share #3 foi o texto “Diga Oi Pra Lucy“. Em um excelente texto[1], Tim Urban fala sobre as diversas razões de a Geração Y ser infeliz. Leitura obrigatória. Realmente muito bom.

Mas eu discordo dele.
(Brace yourselves; esse será um post longo.)

Bem, na verdade, eu concordo com todas as análises dele, mas discordo da primeira premissa – e, portanto, das conclusões. Segundo ele, antes de saber por que a geração é infeliz, é necessário definir o que é felicidade – e é da definição dele que eu discordo. Pra ele,

Felicidade = Realidade – Expectativas

Felicidade-TIm-Urban
A felicidade, segundo Tim Urban. Espere menos e seja mais feliz.

Pra mim, essa premissa é simplista[2] demais, e todas as análises dele, embora brilhantes, falham por olhar somente da ótica pontual realidade vs expectativa, o que leva a entender a felicidade como a sucessão de eventos diários (como várias corridas de 100m rasos), em vez de um caminho longo de altos, platôs, e baixos com soma positiva (como uma maratona).

Além disso, me parece uma atitude extremamente passiva em relação à vida: espere menos da realidade e seja mais feliz. Isso é uma quase uma falácia; embora seja verdade em si mesma, essa abordagem deixa muito a desejar em termos da sua capacidade de agência no mundo.

Por fim, as recomendações dele para a Lucy (das quais eu não discordo, per se) não resolvem esse primeiro problema; ou, resolvem paliativamente o problema. De qualquer maneira, o ponto de falha dele está na definição da premissa. Eu vejo diferente. Pra mim,

Felicidade = Propósito * Execução

Felicidade2
A felicidade, segundo Fernando Dias. Tenha um propósito e faça acontecer, e seja feliz.

O que é a Geração Y?

Antes de seguir, acho que vale a pena falar rapidamente sobre a Geração Y e, para isso, sobre as outras. Na minha visão, é meio contraproducente tentar definir uma data de fim de uma geração e início da outra, porque isso simplesmente não acontece (claro), mas especialmente porque ocorrem em tempos diferentes em lugares diferentes do mundo.

Além disso, as gerações diferem muito mais em como enxergam, reagem ao e agem no mundo do que por mera data; isso é importante notar devido às diferenças entre os países e culturas. Falar que a Geração Y começa em 1980 pode parecer adequado quando falamos dos países desenvolvidos, mas é completamente ilógico quando falamos dos países como o Brasil. Isso fica mais claro se falarmos sobre o ponto de virada [3] que fez com que essa mudança ocorresse.

A principal mudança da Geração Y em relação às gerações anteriores é a conexão entre informações. Como advento da Internet, uma quantidade muito maior de informações estava disponível de maneira muito mais fácil e rápida e barata para todos. Até aí, sem problemas – todas as gerações da humanidade valeram-se de informações cada vez melhor guardadas e mais facilmente acessadas. A grande mudança não acontece com a internet sozinha. O que vai realmente mudar profundamente a humanidade é o HIPERTEXTO[4].

Hipertexto é a organização de unidades de informação em associações conectadas que um usuário pode decidir fazer.

Pela primeira vez, a conexão entre as informações passou a ser mais fácil; os caminhos, mais plurais; as possibilidades, praticamente infinitas. As notas de rodapé passaram a integrar o texto. A conexão entre as pessoas (culminando nas mídias sociais ou redes sociais de hoje) é uma derivação dessa funcionalidade, somada à conexão entre pontos geradores de conteúdo (i.e. computadores).

Essa capacidade de pensar em múltiplos caminhos causa uma profunda mudança na sociedade. A geração Boomer não consegue entender a multiplicidade de caminhos tão diversos. A geração X entende e sabe navegar nesse ambiente, mais ainda o faz de uma maneira cartesiana (Ponto A para Ponto B para Ponto C). A Geração Y começa a navegar as informações (e a enxergar o mundo) de uma maneira diagramática, plural. Não existe mais preto e branco (Gen Boomer), nem tons de cinza e cores finitas (Gen X), mas diversas cores pra escolher ou criar.

Gerações
Eis como eu enxergo cada geração. Não é à toa que as gerações anteriores à Geração Y acusam-na de falta de foco.

(Em algum momento, escreverei um post analisando melhor os diversos e interessantíssimos contrastes entre as gerações, mas não quero que ninguém perca o foco desse texto.)

Falando especificamente de carreira: a Geração Boomer precisava de segurança e estabilidade, e não consegue entender a quebra da estrutura cartesiana para a diagramática. A Geração X consegue, mas não aceita a navegabilidade como válida ou produtiva para a carreira. As duas, por não conseguirem lidar com caminhos e abas e histórias paralelas e simultâneas, acusam (talvez não de maneira infundada) a Geração Y de falta de foco.

No entanto, a questão aqui, pra mim, é menos o foco, e mais o propósito.

O que é Propósito?

1. a. algo definido como objeto ou fim a ser alcançado: INTENÇÃO
b. RESOLUÇÃO, DETERMINAÇÃO
2. a. um tema em discussão ou uma ação em curso de EXECUÇÃO[5]

Diana Nyad é a primeira pessoa a atravessar a nado os 168km de água entre Cuba e Estados Unidos[6]. Claro, ela não foi a primeira a tentar. E também não foi na primeira tentativa que ela conseguiu. Ela relata como foram os dias que ela passou imersa em água salgada, braçada depois de braçada – e ela não diz, em momento nenhum, que foi divertido (exceto ver o Taj Mahal ali; isso deve ter sido MUITO legal). Nem estava nadando contra ninguém – não precisava se preocupar com pessoas que estivessem nadando mais rápido que ela. Ela falhou várias vezes. Ela sofreu. Ela delirou, nadou, desidratou. Mas ela tinha um propósito – atravessar o Golfo do México. E isso é algo bastante tangível; ela relata que ver Cape Town no horizonte foi uma experiência especial em si só. Ela vislumbrou seu destino se aproximando. Seu propósito.

Claro, ficar olhando para a grama do vizinho deixa Lucy triste, mas não porque o outro tem um jardim melhor, mas porque ela vê que o vizinho tem um objetivo. Então minha primeira dica pra Lucy não seria “permaneça selvagemente ambiciosa”, mas “tenha claro qual é o seu propósito.”

A questão entre “falta de foco” e “falta de propósito” estão intimamente ligadas, com certeza, mas um é consequência do outro. Falta de foco é o sintoma, não a causa. Com propósito, nossa visão fica menos difusa. Temos mais foco. Mas estar ambicioso, ou ter um propósito, não basta. É preciso executá-lo.

O que é Execução?

1. ato ou processo de executar: PERFORMANCE[7]

(Performance)
1. algo conquistado
2. o cumprimento de uma demanda, promessa, ou pedido

A outra variável da equação de felicidade é a EXECUÇÃO do propósito. Eu tive bastante medo dessa palavra por bastante tempo, mas agora estamos nos entendendo melhor. (Parte era pela minha falta de propósito. Falemos disso depois.) Interessante notar que ela tem duas vertentes distintas e complementares, e as duas são importantes. A primeira é o FATO – a conquista, o terminado, o verbo particípio (ação) como substantivo (resultado)[8]. A segunda é o PROCESSO – o caminho de A para B, o processo de cumprir o que foi colocado como objetivo.

Então, se me permitem, vou respeitosamente discordar de pensadores como Anderson, Emerson, e Diana Nyad, que dizem que o que conta não é o destino, mas o caminho: as duas coisas contam.

Voltando pra Diana Nyad. Se ela tivesse o propósito de atravessar a nado uma piscina de 100m, mas odiasse nadar, não seria a mesma coisa, e o resultado da equação de felicidade seria mais baixo. Se ela tivesse o propósito de chegar nos EUA a nado, amasse nadar, mas não conseguisse (como realmente não conseguiu algumas vezes), o resultado também seria inferior (como ela diz que foi). A felicidade só atingiu seu ponto ótimo quando ela EXECUTOU, ou passou pelo processo e teve uma entrega.

Voltando à Lucy

Os pais da Lucy (os Boomers) tinham um propósito muito claro [estabilidade] e executaram à risca o plano pra isso {carreiras estáveis e previsíveis}. A geração entre a Lucy e seus pais (a Geração X) também tinha um propósito claro [enriquecer e ganhar poder[9]], e muitos executaram muito bem o plano {atingir cargos e salários altos através de networking e muitas, muitas horas de trabalho}. Nesses dois casos, quem não conseguisse atingir seu propósito também tinha um gap de felicidade – seja porque não gostavam dos seus trabalhos, não tinham o salário que gostariam, não tiveram carreiras longas, etc etc.

E a Lucy? A Lucy tem acesso a muita, muita coisa hoje. Mais informação é produzida em dois dias do que toda a informação que foi documentada desde a invenção da escrita, até 1990[10]. O tempo e o custo das viagens reduziram-se a frações do que eram antes, e mais fronteiras e mais culturas estão abertas. Milhares de carreiras que existem hoje não existiam há 30 anos, e a quantidade de empreendedores no mundo é cada vez maior. Existem mais organizações sem fins lucrativos que governos. Existem mais cursos e mais faculdades e cada vez mais acesso a educação gratuita que nunca. Mais celulares no Brasil que brasileiros. Mais música; mais literatura; mais filmes, mais ruas, mais pessoas, mais mapas mais sabores mais novidadesmaisbebidasmaisnotíciasmaismaismaismaismais e, além de tudo, toda essa informação é cada vez mais barata – quando não é de graça (não entrando no mérito da legalidade ou da ética disso).

Dá pra culpar a Lucy? É coisa demais. Barulho demais. Mostraram um mundo novo pra Lucy, mas ninguém ensinou a filtrar o barulho, o irrelevante, o falso, o spam; nem ensinou como produzir nesse mundo novo. A Lucy ainda está aprendendo a ver um mundo com possibilidades infinitas – e por ver essas possibilidades, a Lucy é sonhadora, é otimista. Talvez a irmã mais nova dela veja diferente[11], e seja mais realista, mas porque a Lucy vai ter desbravado o caminho e, em vez de ficar feliz em ter uma caixa de mensagens lotada, fique feliz em ter uma caixa de entrada limpa, com um filtro anti-spam mais eficiente que o da Lucy.

A Lucy é infeliz está infeliz porque mostraram todas as possibilidades pra ela, mas não disseram que ela deveria escolher; deixaram-na com a impressão de que tudo é possível, sem a expressão de que não é possível fazer e ter tudo. Não deram um horizonte – a Lucy está nadando num mar em direção à luz, mas é só o Sol nascendo, não as luzes da cidade. Falta propósito. Ou falta execução. Ou os dois. E nesse cenário, os conselhos do Tim pra Lucy não funcionam – só depois que ela tiver um propósito.

Meus conselhos pra Lucy

1. Tenha claro seu propósito. Você pode fazer qualquer coisa, mas não pode fazer todas as coisas. Se não sabe por onde começar, faça alguma coisa[12]; não espere a inspiração pra se sentir motivada a fazer alguma coisa (inspiração > motivação > ação), mas faça alguma coisa, até achar uma que te inspire a seguir nesse caminho e te dê mais motivação pra continuar fazendo essa mesma coisa (ação > inspiração > motivação > ação > inspiração > motivação > ação…). Se já souber,

2. Filtre o barulho. Seu cérebro faz isso o tempo inteiro com sons[13] e com os outros sentidos (i.e. podemos sempre ver nosso nariz, mas nosso cérebro decide não considerar isso – você está fazendo isso agora, não?), e você pode fazer isso com informações. A ideia não é “ignorar todos os demais”, mas filtrar o que, nesse mundo de informação, é sinal (relevante) ou barulho (irrelevante). Sem um propósito ou sem uma prioridade, seu inconsciente não sabe o que é sinal ou barulho, então absorve tudo o que pode e te causa estresse e desorientação. Decida o que é que você precisa mensurar.

3. Entenda as sazonalidades da sua vida. Nenhum caminho é reto e plano o tempo inteiro, e esperar que seja vai prejudicar a execução. Saiba ler o momento e execute de maneira a tirar o máximo de valor de cada fase da vida.


IDEA IN BRIEF

Nesse texto, argumentei contra a visão de que felicidade é uma mera diferença entre expectativa e realidade, e ofereci uma visão alternativa, de que felicidade é o resultado da execução em direção a um propósito.

Falei um pouco sobre as gerações para explicar a razão da falta de foco da Geração Y, mostrando que isso é um sintoma da falta de propósito – e consequente desperdício de energia em direção à realização de algo.

Por fim, ofereço três conselhos alternativos para alguém que se sinta infeliz com o rumo da vida que está tomando.


BONUS

POR QUE VOCÊ VAI FALHAR EM TER UMA CARREIRA BRILHANTE

Acho cabível, depois de falar sobre propósito e execução, mostrar uma das melhores TED Talks que eu já vi, e que vai nesse sentido.

E aí? Você vai ter uma carreira brilhante? E uma vida brilhante? Ah, se eu tivesse…


NOTAS DE RODAPÉ (SIM, NOTAS DE RODAPÉ)
1. http://waitbutwhy.com/2013/09/why-generation-y-yuppies-are-unhappy.html
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2. Simplista vs simples:
Simples: coisa que não é complicada, que não possui enfeites, ou que é clara, evidente ou natural.
Simplista: em que há simplismo, simplicidade exagerada; ingênuo: espírito simplista; preguiçoso.
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3. Tipping Point – Malcolm Gladwell, um dos melhores livros que eu já li. http://www.amazon.com.br/ponto-virada-Tipping-pequenas-diferen%C3%A7a-ebook/dp/B00B1B0VOC
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4. http://searchsoa.techtarget.com/definition/hypertext, em livre tradução
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5. Definição do dicionário Merriam-Webster, em livre tradução
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6. Dica da minha mulher. Obrigado!, amor!
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7. Definição do dicionário Merriam-Webster, em livre tradução
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8. http://dicionarioportugues.org/pt/participio
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9. Sem juízo de valor sobre nenhuma geração ou driver. Aliás, poder pode significar qualquer coisa (dinheiro, influência, estética, posse etc).
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10. http://www.domo.com/blog/2014/04/data-never-sleeps-2-0/
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11. Agora que você estava começando a entender a Geração Y, surge a Geração Z? Falaremos sobre isso em outro post. Até lá, deixo essa referência: http://www.business2community.com/social-data/15-aspects-that-highlight-how-generation-z-is-different-from-millennials-01244940
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12. http://markmanson.net/do-something
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13. https://www.sciencenews.org/blog/scicurious/how-brains-filter-signal-noise
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6 respostas para “A REAL razão pela qual os trabalhadores da Geração Y são infelizes”

  1. Muito bem colocado o texto Fernando. Eu a princípio quando li o texto que vc cita me senti incomodado na definição de felicidade que o autor colocou, mas decidi seguir o raciocínio baseado nessa premissa, ele realmente leva a uma definição simplificada é errônea da realidade. Vc foi mais fundo nisso, muito bom!

    Achei interessante a reflexão e o raciocínio, teremos muito assunto quando formos para Curitiba! Hahahaha abraço.

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