Entendimento

Estávamos na Itália para nossa lua-de-mel minha esposa e eu, e eu insisti com ela para que passássemos em Assis, ainda que fosse um devio considerável da nossa rota planejada. Além de ser uma cidade com muita história, quem foi me disse sentir uma paz imensa só de estar ali. Pra mim, valia o desvio.

Chegamos no hotel cedo e, sem poder fazer o check-in, deixamos as malas na recepção e colocávamos a conversa em dia com a madrinha da minha esposa, que nos encontrou lá com seu marido para passar o dia conosco. Desde o nosso casamento não os víamos, mas como moram lá metade do ano, já estava combinado esse passeio juntos.

Próximo da hora de pegarmos a van para o centro da cidade, eu quis entender qual era a tal da paz de Assis, e fui para fora do lobby e me sentei em uma mureta. O céu azul sem nuvens, o som dos pássaros e dos poucos carros que passavam, pequenas coisas se somavam aos sentidos e aumentavam minha expectativa – exceto pelo calor que fazia, especialmente debaixo daquele sol direto. Ainda assim, estava animado em saber como era essa paz, e antecipava-a ansiosamente feliz.

Então um barulho completamente antinatural rompe essa espera, como se o vizinho tivesse resolvido furar a sua parede às onze da noite. Um jardineiro liga sua máquina, do outro lado da rua, e começa a destruir o mato alto em cortes largos e brutais. A cena toda destoava da imagem que eu antecipava na cidade – os movimentos eram agressivos; o som da máquina, mecânico; o som das plantas sendo arrancadas, brutal. O jardineiro, de roupas compridas e pesadas, parecia sofrer dentro da sua estufa particular, e descontar com a roçadeira no mato que o obrigava a estar ali.

Eu não conseguia parar de olhar. Naquele instante, aquilo era uma chacina, intolerável para a cidade do santo protetor dos animais, da natureza. Sem me mexer, eu acompanhava cada movimento duro, o mato baixando à sua frente. Mas percebi que ele não fazia isso de qualquer maneira – pelo contrário, seu rosto, embora suado e grave, estava completamente absorto na sua atividade, e seus movimentos, apesar de brutos, não eram desleixados, mas precisos. Ele sabia o que estava fazendo.

Ele deve sentir prazer em destruir, pensei, a ponto de calcular cada movimento. Fez questão de não deixar uma só folha sem aparar, inclusive ao redor de uma árvore. E seguia com seu caminho, disposto a fazer um serviço limpo e eficiente. Pobres flores, devo ter falado baixo, quando percebi que duas flores amarelas que se destacavam no meio do matagal. Cresciam a cinco centímetros uma da outra, sozinhas em meio ao verde. Estavam a trinta segundos da aniquilação impiedosa do jardineiro e sua roçadeira. Quinze. Os movimentos em meia-lua da máquina seguiam, e os sons dos matos sendo arrancados pareciam mais altos. Dez. Cinco. Pobres flores. Devo ter prendido a respiração. Dois. Um – e silêncio.

Demorei um tempo pra entender o que estava acontecendo. O jardineiro já tinha visto as flores, e já tinha limpado a maior parte do mato ao redor delas. Com precisão cirúrgica, parou seu corte no momento em que as duas flores seriam destruidas e, com todo o cuidado, cortou delicadamente o matagal que crescia entre uma e outra, sem pressa.

Aos poucos voltei a perceber o céu azul, o som dos pássaros e dos poucos carros que passavam, mas eu estava diferente. Eu jamais antecipava aquele desfecho para as flores. Agora eu voltava a ouvir a roçadeira e o mato, a ver a expressão compenetrada e o movimento em meia-lua, mas não era mais o jardineiro brutal de antes, mas alguém com total apreço à vida. Jamais tinha presenciado isso, nem experienciado tamanha paz.

Aquele homem havia encontrado seu ikigai – sua razão de viver – ou seu caminho. Ele sabia exatamente quem era. Esse foi meu entendimento. E, ali, eu decidi que também seria assim. Também encontraria meu ikigai.

Esse blog é sobre isso.

2 respostas para “Entendimento”

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