Auto-ajuda vs Auto-disciplina

Eu não sou contra remédios. Realmente não. O que eu sou contra é esconder-se atrás de um, isentar-se da responsabilidade de melhorar. Então, eu não sou contra a auto-ajuda, mas 90% do que existe é um cocô de touro – às vezes, muito perigoso.

A analogia entre auto-ajuda e remédio me parece coerente. Você pode se auto-medicar de um nariz escorrendo ou uma dor de cabeça esporádica, sem muitos medos – essa é uma auto-ajuda pra quem não está mal de verdade, apenas temporariamente combalido; assim é a parte rasa da auto-ajuda, pros resfriados. Essa não apresenta riscos, até por ser direcionada pra pessoas que estão bem (“Quem mexeu no meu queijo?”, “Como fazer amigos e influenciar pessoas” etc).

O problema não está na aspirina que você toma quando tem dor de cabeça. Está na aspirina tomada todo dia há dois anos, e que não te empurra a checar o porquê da dor de cabeça. Está nos remédios mais pesados, pra problemas mais complicados – depressão, por exemplo – administrados da maneira errada. Você sente-se mal há um tempo, alguém te recomenda ver um psiquiatra, ele te diagnostica com depressão e recomenda que você vá ver uma psicóloga, mas como seu estado é ruim ele te receita um antidepressivo, pra te ajudar com os primeiros passos. Você sai confiante de que vai conseguir sair da fase de baixa. Aí você marca o psicólogo, pra dali um mês e, no meio tempo, começa com o remédio. E o remédio faz o que deveria realmente fazer, e te tira da fase de baixa. Passado um mês, você sente-se bem, e não aparece no psicólogo.

Quando acaba seu remédio, você volta ao seu estado anterior, volta ao psiquiatra, que te receita novamente psicólogo e remédio, e você toma o remédio – você estava muito bem com o remédio – e não vai de novo ao psicólogo. Você está bem. Com o remédio. Sem resolver. Sem responsabilidade.

Esse é o problema. Na maior parte dos casos, a depressão é um fator psicológico, não químico. O remédio serve como boia, e ela te ajuda a botar a cabeça pra fora da água o suficiente pra trabalhar melhor na psicologia (ou na dor de cabeça daquele dia). Se você efetivamente trabalha seu psicológico (ou faz os exames pra entender sua dor de cabeça), você sai de maneira sustentável da fase de baixa. Se você se esconde, você não trabalha, não assume responsabilidade; seu corpo vai definhar mais e mais na boia.

Os remédios têm sua função, como a boia, e têm hora pra acabar.
Esconder-se atrás deles é rápido, fácil, sem esforço, de fora pra dentro e, no fim, desastroso.
O trabalho psicológico é longo, difícil, doloroso; mas é de dentro pra fora, e gera valor real, sustentável.

Auto-ajuda tem sua função.
Auto-disciplina é sustentável.

4 respostas para “Auto-ajuda vs Auto-disciplina”

  1. Todos os problemas precisam ser resolvidos?

    Se o benefício esperado da resolução real do problema for o mesmo benefício esperado de tomar o remédio, por que não avaliar o custo de cada alternativa?

  2. 1. Não, não todos; os prioritários primeiro, e o resto, se você achar que deve.
    2. Tomar remédio não é sustentável, no longo prazo. Talvez não seja uma questão de remédio, mas de óculos; se você está ok com usar óculos pro resto da vida, só lembre de rever o grau de quando em quando, mas se não, talvez uma cirurgia seja a solução. Abs!

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