As três fases

Life's a marathon, not a 100m run.
Life’s a marathon, not a 100m run.
Estivemos conversando recentemente sobre nossas fases no trabalho, minha mulher e eu, e eu falei sobre como eu vejo essas fases, e como não são exclusivas do trabalho. São: a Fase Estavel, a Fase de Baixa, e a Fase de Alta. E eu acredito que seja possivel gerar muito valor em cada uma delas (sim, inclusive na de Baixa).

 

1. Fase Estável
A maior parte do tempo passamos nesse estágio. É o momento das rotinas, de seguir o plano, de curtir a viagem, steady-as-she-goes. Não estamos pra entregar um mega-projeto, não temos que fazer (muitas) horas extras, conseguimos manter aquelas promessas que fazemos a nós mesmos (como ir à academia antes do trabalho três vezes na semana). Nossa vida está perfeitamente… estável.

Como aproveitar ao máximo essa fase:
A. Descubra mais sobre você mesmo
Aproveite para entender mais sobre você mesmo. Quantas vezes você para pra pensar se você gostaria de praticar um novo esporte, estudar uma nova língua, visitar para algum lugar diferente, revisitar um lugar especial. Eu acredito que é fazendo coisas que descobrimos coisas sobre nós mesmos. Também escreva sobre você: quais são seus valores? Qual é a sua filosofia de vida? Quais as coisas que você sente e pensa e acha que não precisa mais sentir e pensar? Qual a sua visão de mundo? No que você realmente acredita? (Aproveite também para limpar seu armário; algumas roupas suas têm mais de três anos; você ainda é a mesma pessoa? Ainda é o seu estilo?)

B. Escolha seu futuro
Essa é a melhor hora pra isso. Você não está na pior nem na melhor fase, então consegue pensar à frente sem pressão. Essa é a hora de você atualizar seu LinkedIn, de fazer networking no trabalho, de sentir se você está feliz com seu corpo, de pensar em como você quer que sua vida seja daqui cinco, dez anos, e desenhar uma estratégia pra chegar lá. Você tem tempo. Aproveite pra colocar sua vida em perspectiva e ver se você é feliz com o rumo que sua vida está tomando. Como sempre temos ajustes de rotas a fazer, veja o que você pode fazer hoje para ser diferente daqui pra frente.

C. Desenhe sua rotina
Parece chato, parece que não vai ser divertido nem ter espaço pra isso, mas se bem planejada, a rotina pode acelerar seus projetos. A rotina chata e antiprodutiva é aquela na qual caímos por default, por estagnação; não a planejamos, vamos “seguindo o fluxo” sem saber pra onde ir. Agora, a rotina by design é uma ferramenta importantíssima para atingir aquilo que você quer em planos secundários, mas “não tem tempo” pra fazer. Coloque metas [post sobre Personal Tracker] e planeje seus dias de acordo com isso, e valha-se da rotina pra entrar em um modo automático – e de repente essas coisas não são mais rotina. Quer ser mais saudável? Planeje seus dias de modo a poder ir à academia ou correr antes do trabalho (ou depois, mas antes você já foi e não surge nenhuma desculpa, como no caso de depois. Mas a rotina é sua.) Quer ler um livro? Planeje ler um capítulo por dia. É um sentimento muito libertador, você desenhar sua rotina como quer. E depois confie no piloto automático.

 

2. Fase de Baixa
A Fase de Baixa pode ter muitas caras. Pode ser uma fase em que as coisas estão dando errado na sua vida pessoal. Você está desiludido com seu trabalho, ou você tem pouco (ou nenhum) trabalho. Você pode ter machucado o joelho e não pode correr. Enfim, sabemos quando estamos nessa fase.

Toda viagem tem turbulência. Eu tinha medo de viajar, e a antecipação da turbulência sempre fez com que eu não aproveitasse os voos da melhor maneira possivel odiasse voar; eu lia livros e revistas de absoluto nervoso. Até que uma vez peguei um voo Curitiba-Campinas em que o comandante do voo disse, ainda em solo: “… e nesse trecho é provável que passemos por um trecho de turbulência; isso é absolutamente normal em qualquer voo, e faz parte da nossa rotina de trabalho.” Aquela foi a primeira vez em que eu lembrei do que tinha lido. Então, aqui vai:

Nessa vida, você certamente vai passar por fases de baixa, mas isso é absolutamente normal pra todo mundo, e faz parte de estar vivo.

Já se sente mais tranquilo? Que bom. (Eu repito essa fala do comandante pra mim mesmo toda vez que eu entro num avião.)

Como aproveitar ao máximo essa fase:
A. Foque nos Fundamentos
Acredito que esse seja o ponto mais importante do post.
Quem já treinou futebol (ou outro esporte com bola, acho) conhece isso: treinar passe, treinar chute, treinar posicionamento, treinar movimentação etc etc. Fundamento é tudo aquilo que dá a base pra atividade, pra hora do vamos ver, pra hora do jogo. Quem treinou ativamente passe vai passar melhor a bola durante o jogo. E assim vale pra qualquer aspecto da vida. Quais são os fundamentos para as suas atividades?

Eu acredito que manter-se saudável é fundamental pra todas, então aproveite a fase de baixa pra ir mais vezes pra academia. Você se machucou?, e a sua fase de baixa é não poder treinar? Aproveite pra focar nos fundamentos do seu treino: seu planejamento está adequado? Você está acordando bem e disposto pra treinar bem? Seus treinos precisam mudar? Procure na internet novos treinos que podem te ajudar a chegar melhor e mais rápido no seu objetivo, se prepare bem, se recupere bem e, quando você voltar a treinar, vai estar melhor preparado.

Enfim, vou fazer uma lista do que eu acredito serem os fundamentos básicos pra todas as atividades
Estar saudável (e sim, fit) – sua rotina de cuidados precisa de ajustes?
Conhecer-se bem (e entender o que precisa mudar, e aceitar o que não dá pra mudar)
Tempo de qualidade com a família (qualquer que ela seja)

E cada atividade e objetivo têm seus próprios fundamentos, independente de qual seja. Alguns exemplos:
Futebol: passe, chute, posicionamento
Academia: treino adequado, movimentos certos, alimentação correta
Trabalho: aqui podem variar bastante, mas alguns comuns são estar satisfeito com suas atividades, valores comuns à empresa, relacionamento

Todos esses fundamentos acabam sendo tomados como certos durante a fase estável; às vezes é necessária uma turbulência pra fazer a gente lembrar que eles existem.

B. Descubra o que é realmente essencial
Focar nos fundamentos tem outro efeito interessante: você gasta menos tempo com coisas que não são necessárias. Verdade, você talvez gaste menos tempo em coisas que seriam importantes também, mas perceba o quão libertador é não fazer algumas coisas. Essas coisas são barulho. Essas coisas não geram valor. Essas coisas são não-essenciais.

Descobrir qual é a essência das atividades que você decide como prioridade na sua vida pode ser difícil no começo, mas uma vez identificadas, viver de modo a preservar essa essência passa a ser… bom, passa a ser bastante difícil, no começo. Você vai dizer muito mais “nãos” que antes. Você vai entrar em mais choques de espaço que antes. Vai ser como se você tivesse levantado um muro pra proteger essa essência, e as pessoas vão bater nesse muro. E vão bater de volta, reagir com força no começo. Como assim?, você não vai viajar? Como assim?, você não vai no happy-hour hoje? Como assim?, você não vai trabalhar no sábado? Como assim?, você vai sair da faculdade/do emprego? As pessoas podem até retaliar – um chefe passa uma promoção sua (ou te demite – pode acontecer), ou seus amigos vão te ignorar por um tempo. Mas isso é problema delas. Você é o único que conhece os seus custos de oportunidade (ou trade-offs).

Basicamente, custo de oportunidade se explica assim: se você decide fazer alguma coisa, você está abrindo mão de fazer outras, e se uma das outras coisas que você poderia fazer geram mais valor do que a que você decidiu fazer, você tem um custo de oportunidade negativo (você poderia gerar mais valor no mesmo tempo / com a mesma energia / etc), e o inverso é verdadeiro. A questão é, você decide o que é de maior valor pra você. Se deixar outras pessoas decidirem por você, você corre muito risco de fazer algo que gere menos valor do que você gostaria.

 

3. Fase de Alta
Você arremesa e faz cesta. Uma, duas, dez vezes. Nem você sabe explicar. Você está “on fire”. O universo conspira e você recebe a chance de trabalhar no principal projeto da empresa, ou de substituir seu chefe nas férias dele, ou é o único que fala mandarim fluente o suficiente para levar o vice-presidente mundial para almoçar. Você treinou pra esse momento. Você sabe quem você é, você está saudável, sabe pra onde está indo, e a oportunidade de acelerar essa jornada se apresenta. Agora, lá vai mais uma verdade dura:

Essa fase de alta também passa.

Como aproveitar ao máximo essa fase:
A. Ganhe “Gordura”
Ninguém fica muito tempo numa fase de alta. Ponto. Não aja como se isso fosse acontecer com você. Em tempos de vacas gordas, poupe. Aliás, a origem desse ditado tem lições interessantes. Ela vem da Bíblia, em que um faraó do Egito sonhou que sete vacas bem gordas atravessaram o rio e pastavam bovinamente, e depois sete vacas magras atravessaram o mesmo rio e devoraram as vacas gordas; nisso ele chamou José, que disse que o Egito passaria por sete anos de alta prosperidade, mas depois sete anos de sofrimento, e mandou o faraó guardar 20% de tudo que fosse produzido, e isso salvou a todos nos sete anos ruins. Faça isso. Isso serve pra tudo. Você está com mais trabalho? Poupe todo o dinheiro extra que entrar com as horas extras (não compre uma TV nova; esse dinheiro não é parte normal do fluxo), ou aumente seu banco de horas pra quando você precisar de uma semana sabática ou passar mais tempo com a família; aproveite também para entregar mais e mais resultados pra sua empresa, porque isso vai ser considerado mais pra frente.

B. Repriorize e dê “Foco de Laser”
Você teve uma chance de ocupar um cargo mais alto no trabalho, temporaria ou definitivamente? Começou em um emprego novo? Aproveite essa chance pra mostrar mais do seu trabalho e do seu jeito de ver o mundo e os negócios; essa é a hora de deixar isso como prioridade (não se preocupe, seus fundamentos estão em dia, certo?, e tê-los em dia te dá uma “gordura de energia” pra gastar agora). Entregue mais, faça networking, chegue mais cedo e saia mais tarde, vá em happy-hours, trabalhe no fim de semana, se precisar. Você está com mais gás pra treinar? Dê foco nisso. Pra escrever? Escreva como um maluco. Esse “foco de laser”, embora consuma muita energia, não dura, então dê esse sprint pra avançar. Se você realmente está com os fundamentos em dia, você estará saudável e não perderá a chance por alguma doença ou por falta de preparo físico; você sabe quem você é e consegue aceitar sem “e ses…” que algumas coisas vão deixar de ser feitas pelo seu objetivo – os custos de oportunidade; você está bem com sua família, e eles entendem seu objetivo e vão te apoiar – pode ser que seja triste pra eles não ter você por perto, mas eles sabem que isso é importante e que também vai passar. Nunca descuide dos seus fundamentos.


 

IDEA IN BRIEF

Todos nós passamos por três fases, em qualquer aspecto da nossa vida: a Fase Estável, a Fase de Baixa e a Fase de Alta. Acredito que exista muito valor a ser gerado em cada um desses momentos. Aqui está o que eu faço em cada uma:

1. Fase Estável
A. Descubra mais sobre você mesmo
B. Escolha seu futuro
C. Desenhe sua rotina

2. Fase de Baixa
A. Foque nos Fundamentos
B. Descubra o que é realmente essencial

3. Fase de Alta
A. Ganhe “Gordura”
B. Repriorize e dê “Foco de Laser”

6 respostas para “As três fases”

  1. Concordo. Mais ou menos.

    1- Fase estável
    A – ganhe gordura
    B – desenhe sua rotina

    2 – Fase da baixa
    A – descubra mais sobre você mesmo
    B – escolha seu futuro
    C – repriorize e dê foco de leiser

    3 – Fase da alta
    A – foque nos fundamentos
    B – descubra o que é realmente essencial

  2. Thanks pela perspectiva diferente! Continuo “concordando comigo mesmo”, mas essa sua sequëncia me ajudou a entender e organizar ainda melhor o que eu disse.

    (You know what, eu ia responder aqui, mas gostei do que estava escrevendo e de como isso me fez pensar, então vai virar um post. Hang in there.)

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